La Scala renasce aos 80 anos: emoções e Verdi no coração de Milão

La Scala celebra 80 anos da reabertura com concerto dedicado a Verdi; Mattarella, Toscanini e a presença dos músicos da Casa Verdi marcam a homenagem.

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La Scala renasce aos 80 anos: emoções e Verdi no coração de Milão

Por Chiara Lombardi — Em uma noite que foi ao mesmo tempo retrospectiva e consigna para o futuro, a La Scala celebrou os 80 anos da reconstrução após os bombardeios de 1943 com um concerto centrado nas notas de Verdi e em memórias que parecem projetadas como cenas de um filme de época. A entrada do presidente da República, Sergio Mattarella, foi recebida com um estrondoso aplauso e gritos de "bravo" — um gesto coletivo que transformou a plateia num espelho do nosso tempo.

O aniversário remonta ao emblemático 11 de maio de 1946, quando Arturo Toscanini conduziu a reabertura do teatro: o primeiro monumento em Milão a ser restaurado depois das destruições da guerra. Em respeito a essa tradição decidida por Toscanini, músicos da Casa Verdi ocuparam o centro do palco — lembrança pungente de que a história da ópera italiana está entrelaçada com instituições de solidariedade e memória. A Casa Verdi, construída com os recursos do próprio compositor—e projetada pelo arquiteto Camillo Boito, irmão do libreto—é também o lugar onde Verdi repousa, um cenário que reforça a dimensão quase sagrada do evento.

A composição do público confirmava o caráter solene e cívico da noite: além do chefe de Estado, ocupavam a fila central o presidente do Senado Ignazio La Russa, o presidente da região Lombardia Attilio Fontana, a eurodeputada Letizia Moratti, as senadoras e senadores vitalícios Liliana Segre e Mario Monti, o decano do corpo consular Adrian Crego Porley, conselheiros ligadas à fundação da casa de ópera como Giovanni Bazoli e Diana Bracco, e uma numerosa representação de banqueiros, industriais, editores e ex-superintendentes da Scala — entre eles Carlo Fontana e Alexander Pereira. Havia também descendentes das várias ramificações da família Toscanini. Notou-se, com elegância, a ausência de ostentação desnecessária: era uma reunião cívica, não um espetáculo de vaidade.

Algumas presenças pareceram literalmente atravessar o tempo. "Eu tinha nove anos e estava atrás do palco — lembro apenas de Toscanini, não do programa", evocou Fedele Confalonieri, presidente da Veneranda Fabbrica del Duomo, numa memória que funciona como um plano-sequência direto de 1946 para hoje. A colecionadora e melómana Fernanda Giulini também recordou, como relatado no encontro que antecipou a mostra “1946: la Scala rinasce”, a infantil invisibilidade sob a capa da mãe quando assistiu à reabertura.

Os discursos institucionais, com tom voltado ao presente, sublinharam o entrelaçamento entre cultura e vida pública. O prefeito e presidente da Scala, Giuseppe Sala, afirmou que a democracia é "um processo contínuo que se renova, caso contrário não é democracia, mas a sua sombra". Sala acrescentou que, oitenta anos depois, é necessário permanecer do lado certo — o da beleza, da arte e da coragem civil que naquele 11 de maio de 1946 ressoou na sala. Citando Verdi, evocou a máxima de voltar ao antigo como forma de sucesso: o progresso que somos chamados a promover não é ruptura com o passado, mas fidelidade ao que nele foi melhor.

O evento, com seu roteiro público e privado, funciona como um reframing da memória coletiva: a La Scala não é apenas um palco, mas um arquivo vivo do imaginário europeu. Numa cidade que se projeta constantemente entre tradição e inovação, a noite serviu como um alerta elegante — a arte não é mera nostalgia, é mapa para a ação cívica. Em tempos onde símbolos culturais são disputados, a celebração mostrou que a música ainda tem o poder de recriar laços sociais e iluminar o roteiro oculto da nossa história comum.

Para além dos acordes, restou a imagem: um teatro que renasce em sua própria forma de ser público, uma plateia que aplaude como se confirmasse, em uníssono, a resistência daquilo que é belo e digno de ser preservado. Essa foi a verdadeira composição da noite — uma sinfonia entre passado e presente que, como todo bom filme, nos deixa com a pergunta: qual será a próxima cena?