La Scala transforma plateia em cena: público sobe ao palco em 'Minus 16' de Ohad Naharin

Na La Scala, público é convidado a dançar em cena no explosivo 'Minus 16' de Ohad Naharin; ausência do coreógrafo ecoa simbolicamente.

La Scala transforma plateia em cena: público sobe ao palco em 'Minus 16' de Ohad Naharin

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

La Scala transforma plateia em cena: público sobe ao palco em 'Minus 16' de Ohad Naharin

Por Chiara Lombardi — Em uma noite que parece ter rasgado o véu entre palco e plateia, o Teatro alla Scala ofereceu um final de espetáculo que funcionou como espelho do nosso tempo: espectadores convidados a dançar no palco ao término de Minus 16, a peça do coreógrafo israelense Ohad Naharin. O episódio sela o tríptico contemporâneo McGregor/Maillot/Naharin, em cartaz até 28 de março, e confirma o caráter eclético e provocador do Balletto della Scala.

Depois da eletricidade de Chroma, de Wayne McGregor, e do crepúsculo coreografado de Dov'è la luna, de Jérôme Bel/Édouard Maillot — que contou com um Roberto Bolle em versão antidivo — foi Minus 16 que deflagrou, já durante o intervalo, com intervenções performativas que transbordaram para a plateia. Ao som de Echad mi yodea — o canto delle sedie — cantado a plenos pulmões pelos bailarinos, a coreografia de Naharin irradiou uma energia que contagiou público e intérpretes, dissolvendo a fronteira tradicional entre quem assiste e quem atua.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

Há uma ironia dramática no fato de o criador do linguaggio corporale Gaga — apelido que sintetiza sua potência expressiva — não estar presente para este debut na Scala. Conhecido por sua postura crítica em relação ao governo de Israel, Ohad Naharin não pôde deixar sua região, em guerra, e assim faltou fisicamente à noite que homenageou seu trabalho. A ausência trouxe consigo uma presença simbólica: a peça falou tão alto que pareceu atravessar fronteiras e censuras.

Curiosamente, desta vez não houve o gesto político mais visível que alguns esperavam: a bandeira da Palestina não foi hasteada no teatro. Ainda assim, a coreografia e a reação coletiva funcionaram como um comentário não verbal, um refrão emocional que ecoa além das polêmicas e aponta para a potência da dança como linguagem comunitária.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘

Como crítica cultural, vejo nesse episódio mais do que um happening. É um reframe da realidade cênica: o convite para subir ao palco tornou-se um dispositivo de empatia performativa, um convite para experimentar a dança como rito coletivo e memória compartilhada. A noite na Scala funcionou como um pequeno “set” de cinema ao vivo, onde cada espectador-ator compôs uma cena única, instável e preciosa.

Em termos de identidade artística, o tríptico McGregor–Maillot–Naharin reafirma o balé contemporâneo como terreno de experimentação estética e política. De Chroma àquele canto final de Minus 16, o programa sinaliza que a dança, mais uma vez, sabe ser espelho e roteiro oculto da sociedade — convocando-nos a olhar, mover e sentir em conjunto.

Data do evento: 19 de março de 2026.

Serviços La Via Italia — O conteúdo continua após a publicidade.

Continuação do Conteúdo ↘