Laura Guilda: a arte do fio e do vidro — um percurso sensível entre tessitura e memória
Perfil de Laura Guilda: entre tecelagem, vídeo e crítica à moda, sua arte têxtil revela memórias e impacto ambiental como percurso de vida.
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Laura Guilda: a arte do fio e do vidro — um percurso sensível entre tessitura e memória
Por Chiara Lombardi — Espresso Italia
Nascida em 1986 e criada em Berlim, Laura Guilda (assinando Laura GuildA) construiu sua trajetória entre ateliês europeus e a efervescência criativa de Milão. Após experiências formativas na Espanha e na Suíça, mudou-se para a Itália onde se diplomou na Nuova Accademia di Belle Arti (NABA) com um Bachelor of Arts in Fashion and Textile Design em 2013 e concluiu com louvor o Master em Arti Visive e Decorazione na Accademia di Belle Arti di Brera.
A história de Laura revela um entrelaçar de técnicas e colaborações: trabalhos em ateliê para uma estilista milanesa, a parceria contínua com o pintor Ercole Pignatelli desde 2015, e, entre 2018 e 2019, a atuação no arquivo têxtil digital da designer e artista Paola Besana. Foi nessa imersão que sua prática se alimentou tanto da pesquisa histórica quanto da experimentação técnica — frequentou cursos de tecelagem em tear de 4 liços, workshops de tapeçaria e o laboratório de Arazzo Contemporaneo com Elisabetta Genoni.
As obras de Laura são predominantemente feitas com técnicas manuais: tessitura, anudagem, wrapping, costura, tricô e infeltrimento. A artista também manipula fibras, tecidos e materiais não convencionais, usando o vídeo como recurso para ampliar o sentido de suas instalações. Os trabalhos estabelecem um diálogo crítico com a indústria da moda, a produção em massa, o impacto ambiental e a sociedade de consumo, sem deixar de investigar trajetórias íntimas e processos emocionais — um verdadeiro roteiro interior que se revela no tecido.
No plano expositivo, Laura já participou de mostras coletivas em cidades como Milão, Como, Turim, Veneza, Sorrento e Pietrasanta. Em 2019 foi selecionada para o Young Fiber Contest na 4ª Biennale "Tamanda" e recebeu uma menção especial da júri com o trabalho Lost childhood, peça que dois anos depois doou à Collezione Civica di Fiber Art "Trame d’Autore" de Chieri (TO). Entre as individuais, destacam-se Fil rouge (2020), apresentada no SCD Textile & Art Studio em Perugia, e superans (2024), curada por Margaret Sgarra no histórico Studio Zecchillo — antigo estúdio di Piero Manzoni, em Milão. Sua presença foi também reconhecida internacionalmente ao ser selecionada para a Biennale Internazionale di Mini e Micro Textile Art Scythia em Ivano-Frankivs'k, Ucraina.
Conheci Laura em Veneza, durante uma festa-mostra onde a convivialidade se confundia com a exibição artística — e foi ali que me chamou atenção sua liberdade intelectual e poética. Em conversa recente, ela contou sobre o momento atual: participa de várias iniciativas e exposições simultâneas. No dia 10 de maio inaugurou em Busto Arsizio o festival M(A)Y FIBER, que engloba oito mostras, entre elas a 34ª edição de Miniartextil, com o tema “Eterno desiderio”.
A obra de Laura funciona como um espelho do nosso tempo e como um mapa de memórias: fios e fragmentos encenam o que costumamos ignorar — a sobra da produção, a perda de afetos e os gestos repetidos que continuam a fabricar nosso cotidiano. Há, sob a aparência delicada do trabalho manual, uma crítica afiada à obsolescência programada e ao descarte, mas também um convite a perceber a arte como percurso de vida — algo que mora nas coisas e espera para se revelar.
Em sua prática, o que me impressiona é a capacidade de transitar entre o íntimo e o coletivo — a tapeçaria como arquivo pessoal, a instalação como sentença social. Como uma cena cinematográfica, cada peça contém um antes e um depois: o fio é a trilha sonora que liga essas cenas, e o vidro — quando aparece — refrata a imagem, criando um duplo, um reframe da realidade.
Ao acompanhar o trabalho de Laura Guilda, percebemos que a arte têxtil contemporânea não é apenas um retorno a técnicas ancestrais, mas um campo de investigação estética e política, capaz de nos lembrar que o tecido do mundo também é tecido de escolhas. É nessa interseção — entre gesto manual e pensamento crítico — que sua obra se afirma e convida o público a olhar com atenção renovada para o que considerávamos invisível.
Para quem deseja acompanhar, as próximas exposições e colaborações de Laura seguem em agenda diversa: do circuito de bienais à cena local italiana, mantendo sempre a tensão entre forma, matéria e sentido. Um trabalho que, em sua delicadeza, funciona como um roteiro oculto da sociedade — e como um chamado para repensar nossas relações com objetos, memórias e consumo.