Marilyn Monroe: A última entrevista inédita que redefine a lenda
Áudio e fotos inéditas: a última entrevista completa de Marilyn Monroe (junho de 1962) revelam uma voz lúcida e decidida a controlar sua própria imagem.
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Marilyn Monroe: A última entrevista inédita que redefine a lenda
Por Chiara Lombardi — A voz que acreditávamos conhecer de cor revela novos contornos. Surge agora, a poucos dias do que teria sido seu centésimo aniversário, a publicação integral da última entrevista longa de Marilyn Monroe, concedida a Life Magazine e gravada nos dias 28 e 29 de junho de 1962, na sua casa em Brentwood. Tratam-se de cerca de quatro horas de conversação com o jornalista Richard Meryman, até hoje em grande parte inéditas: até então somente alguns minutos do áudio haviam sido utilizados no documentário da HBO de 1992.
O material é acompanhado por excertos sonoros e centenas de imagens nunca antes publicadas feitas pelo fotógrafo Allan Grant. A entrevista, cuja versão escrita saiu em 3 de agosto de 1962 — um dia antes da morte da atriz —, era entendida por Marilyn como uma peça-chave para reposicionar sua carreira, depois de ter sido demitida da 20th Century Fox do filme Something's Got to Give. "Por favor, não me transformem numa piada", pediu ela a Meryman, exigindo que suas palavras fossem publicadas com fidelidade e que pudesse revisar o texto antes da impressão.
No novo lançamento, a imagem que emerge está longe do estereótipo da diva ingênua e inconsistente. No tom, ela é irônica, lúcida, vulnerável e decidida a recuperar o controle da própria narrativa. Fala abertamente de fama, Hollywood, sexualidade e envelhecimento; revisita o episódio do calendário nu que fez para pagar o aluguel e comenta, com franqueza, sua histórica apresentação no Madison Square Garden para o aniversário de John F. Kennedy. Sobre a celebridade, oferece uma metáfora precisa: "A fama é como o caviar. É bom tê-la, mas se a tivermos todo dia, enjoa".
O diálogo também traz passagens cortantes: críticas ao sistema dos estúdios, a recusa em ser reduzida a vaidade e irritações diante de perguntas que parecem enquadrá-la como um objeto. A famosa réplica à questão de como ela se "preparava" para a câmera é exemplar: "Eu não 'me carrego'. Não sou um Model T" — uma tirada que desmonta o processo de objetificação como se fosse uma peça mecânica.
As imagens de Allan Grant têm sua própria história quase cinematográfica: Grant adquiriu os direitos das fotografias da Life em 1967 por apenas um dólar e guardou os rolos por décadas. Foi só recentemente que sua viúva, Karin Grant — ex-editora de fotografia da People — decidiu torná-los públicos, acrescentando textura visual à voz recuperada.
Para os curadores, a publicação é uma espécie de última revelação: não um epitáfio, mas uma autodeclaração sonora que ilumina os paradoxos de uma figura que já calculava sua própria lenda. Nas palavras finais cedidas a Meryman, Marilyn parece medir o peso do mito: "A fama é volúvel. Não conto com ela. Vou encontrar um jeito de existir: faço isso desde que tinha cinco anos". Ler e ouvir essa entrevista é como descobrir, enfim, a cena que faltava num roteiro que nós, espectadores, gostamos de repetir — um espelho do nosso tempo que convida a repensar o que significa ser ícone.