Cattelan relança 'La Nona Ora', abre linha telefônica de confissões e vende 666 miniaturas provocativas

Maurizio Cattelan relança 'La Nona Ora', abre hotline para confissões e vende 666 miniaturas — arte, rito e provocação num projeto participativo.

Cattelan relança 'La Nona Ora', abre linha telefônica de confissões e vende 666 miniaturas provocativas

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Cattelan relança 'La Nona Ora', abre linha telefônica de confissões e vende 666 miniaturas provocativas

Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura rito, irreverência e participação coletiva, Maurizio Cattelan reapresenta La Nona Ora acompanhado de uma iniciativa que toca diretamente o imaginário religioso contemporâneo: uma linha telefônica destinada a receber confissões do público — sem qualquer mediação clerical.

A reedição da obra originalmente exibida em 1999 chega num timing carregado de simbologia: o projeto é lançado em 2 de abril e a hotline ficará ativa até 22 de abril, enquanto um evento em streaming está marcado para 23 de abril. A ação coincide com o período pascal e com o vigésimo primeiro aniversário da morte de João Paulo II, um enquadramento que amplifica o diálogo entre memória coletiva e performatividade artística.

Desenvolvido em colaboração com a plataforma Avant Arte — especializada em multiplicáveis de artistas contemporâneos — o projeto permite que qualquer pessoa deixe uma mensagem de voz ou texto através de um número gratuito nos Estados Unidos ou por WhatsApp (número internacional: +1 601 666 7466). As mensagens serão escutadas pelo próprio Cattelan, que selecionará algumas confissões para responder diretamente e convidar os autores a participar do encontro online.

Além da hotline, o artista padovano relança a peça em forma de série limitada: 666 miniaturas de La Nona Ora, cada uma esculpida em resina pintada à mão com detalhes metálicos no pastorale. Medindo cerca de 30 centímetros, as peças serão ofertadas a €2.200 cada, um número — 666 — escolhido deliberadamente para acentuar o sarcasmo e a provocação que atravessam o trabalho de Maurizio Cattelan.

Como observadora cultural, percebo nesta iniciativa um requinte de contradição: trata-se de um rito secularizado, um espelho do nosso tempo em que a linha telefônica funciona como um confessionário improvisado, livre das hierarquias sacramentais. A ação reconfigura o espaço da culpa e do perdão, transferindo-os do sagrado institucional para a esfera performativa e mediada pela tecnologia — o roteiro oculto da sociedade moderna.

É também uma jogada sobre a mercadoria e a memória: transformar uma imagem icônica e controversa da arte contemporânea em um objeto de coleção em série reduzida é lembrar que o mercado e a provação simbólica muitas vezes caminham juntos. A escolha de 666 como total de reedições atua como uma legenda irônica sobre as leituras apocalípticas que frequentemente recaem sobre imagens religiosas transpostas para o campo artístico.

No fim, a iniciativa funciona como um experimento social. Quem liga para confessar? Que tipo de pedidos surgem quando o confessionário é substituído por uma caixa de mensagens internacional? E como responde um artista que, por definição, encena a provocação? Cattelan nos convida a refletir sobre a fé, o espetáculo e o comércio numa única e calibrada provocação: uma obra que continua a ser, ela própria, um espelho do nosso tempo.