Mauro Staccioli transforma o Forte Stella em cenário sensorial: exposição em Porto Ercole convida a 'atravessar' a arte

Exposição de Mauro Staccioli no Forte Stella (Porto Ercole): 22 obras (1971–2016) que interrogam e atravessam o espaço.

Mauro Staccioli transforma o Forte Stella em cenário sensorial: exposição em Porto Ercole convida a 'atravessar' a arte

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Mauro Staccioli transforma o Forte Stella em cenário sensorial: exposição em Porto Ercole convida a 'atravessar' a arte

Mauro Staccioli chega ao Forte Stella de Porto Ercole, em Monte Argentario, com uma síntese potente de sua obra: uma pequena retrospetiva composta por vinte e duas peças entre esculturas e desenhos que percorrem sua produção de 1971 a 2016. Quatro trabalhos de grande porte marcam os quatro cantos dos bastiões em forma de estrela, enquanto as demais peças — catorze esculturas e quatro desenhos — foram distribuídas nas seis salas triangulares do forte, seguindo uma ordem cronológica que convida o visitante a uma travessia temporal e espacial.

Em ferro, cimento e aço corten, as obras expostas evidenciam a trajetória de Staccioli: dos blocos que, nos anos 1970, erguiam-se como verdadeiras barreiras urbanas — traduzindo em matéria as tensões políticas e sociais da época — até as formas abertas e curvas dos anos 1980 em diante, que propõem passagem, diálogo e experiência compartilhada do espaço. É uma constelação de sinais, onde cada peça funciona como um espelho do nosso tempo e um roteiro oculto da paisagem.

As organizadoras curatorialmente envolvidas destacam a natureza relacional da obra: segundo Francesca Rosi e Caterina Martinelli (2026), as esculturas de Staccioli não limitam-se a ocupar um lugar; elas interrogam o território, transformam-no e convidam a caminhar com atenção. São, nas palavras delas, sinais que exigem uma desaceleração consciente — instrumentos críticos que revelam tensões, equilíbrios e novas perspectivas no ambiente onde se inserem.

Visitar a mostra no Forte Stella é, portanto, mais do que ver formas: é perceber o roteiro oculto que a arte pública traça na experiência coletiva. Nas mesmas paredes que guardam a história militar do promontório, as esculturas funcionam como dispositivos de reframe: convidam o público a reavaliar a relação com o lugar, a memória e a circulação — como se o fortilício, por um instante, se tornasse o cenário de um filme em que o espectador é protagonista.

O percurso expositivo, organizado cronologicamente na planta hexagonal do forte, facilita essa leitura. Os quatro monumentos dispostos nos bastiões atuam como pontos de ancoragem visual, enquanto as peças internas propiciam um diálogo entre a escala monumental e a intimidade do desenho em papel, evidenciando a continuidade do processo criativo de Staccioli: do gesto público ao esboço privado.

A mostra é promovida e apoiada pelo Comune di Monte Argentario, pela Azienda Speciale Argentario Mobilità & Ambiente e por Argentario Turismo, com o contributo científico do Archivio Mauro Staccioli. Essa colaboração institucional transforma a iniciativa em um exemplo de como o patrimônio local e a arte contemporânea podem convergir para oferecer experiências culturais relevantes e reflexivas.

Enquanto observamos as superfícies de aço corten e as massas de cimento, surge a sensação de que cada peça é, ao mesmo tempo, testemunha e intervenção: um sinal inteligente que pede ser lido no contexto. E é essa capacidade de Staccioli de fazer arte que mais provoca — um convite para perguntar, atravessar e, sobretudo, perceber o espaço com novos olhos. Para o público, uma oportunidade rara de encontrar, no ápice de uma fortificação do litoral toscano, o eco cultural de uma trajetória que marcou a escultura contemporânea europeia.