Max Gazzè reinventa o tempo em 20 canções: o ornamento das coisas secundárias
Max Gazzè lança 'L'ornamento delle cose secondarie': 20 canções, afinação a 432 Hz, gravação em fita e tournée em residências artísticas.
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Max Gazzè reinventa o tempo em 20 canções: o ornamento das coisas secundárias
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece um reframe da própria discografia, Max Gazzè lança esta sexta-feira o ambicioso L'ornamento delle cose secondarie, um álbum de 20 canções que transforma a atenção ao detalhe no seu programa estético. A premissa do projeto é simples e paradoxal: dar relevância às coisas secundárias até que se tornem primordiais — um conceito que soa como um espelho do nosso tempo e do modo como envelhecemos em público.
Trinta anos depois do primeiro disco, Gazzè retomou textos escritos por seu irmão — “fragmentos nunca publicados” — e, a partir deles, construiu músicas “em torno da palavra”, partindo da musicalidade intrínseca ao verso. O resultado são faixas que flertam com o progressive em momentos, porém sem artifícios: nada foi sampleado, cada instrumento foi tocado, escolhido e pensado.
Como técnico de som — os amigos o chamam de «orecchio chimico» —, Gazzè comandou a produção com rigor artesanal. Ele tocou quase tudo no disco e optou por uma afinação que muitos artistas consideram mais “calorosa”: 432 Hz em vez dos convencionais 440 Hz. Essa decisão implicou ajustes profundos: instrumentos foram reafinados e até construídos para a ocasião. Entre as curiosidades, um vibrafone encomendado na Colômbia, perto de Bogotá, descrito como o primeiro do tipo calibrado para essa frequência.
O cuidado técnico vai além: a gravação foi realizada em fita, com uma abordagem quase arqueológica dos microfones — entre 9 e 12 por instrumento — e a opção consciente de preservar imperfeições. “Antigamente se corrigia o erro; hoje se corrige tudo, então eu preferi não tocar em nada”, diz o artista, valorizando a organicidade do instante sonoro.
No plano temático, o disco é um passeio pelas idades: do começo da vida às cicatrizes iniciais, em canções como “Da piccolo”, até a contemplação de rostos que mudam em “Faccia da vecchi”. O tempo aparece como uma grande ilusão — e, ao mesmo tempo, como o cenário onde o mudança acontece. É um roteiro sutil sobre fragilidade, memória e aquilo que escolhemos amar.
O giro ao vivo acompanha essa ambição: mais de 40 datas entre outubro e dezembro organizadas como residências artísticas, com pelo menos três noites seguidas em cada cidade. A proposta rompe com o modelo de show único e sugere um método de imersão, como quem transforma palco em laboratório de interpretação, reescrevendo a relação público-artista e reafirmando que o espetáculo é também um processo.
Em tempos de escuta rápida e playlists descartáveis, o novo trabalho de Gazzè pede paciência atenta: é um convite a reparar no ornamento escondido da vida cotidiana, a olhar para o que parecia periférico e, ao observá-lo, descobrir o núcleo de um sentimento. Como em um filme que só revela sua verdade no último plano, o álbum de Max é uma lição de como a minúcia se torna ética e estética — o roteiro oculto da modernidade que insiste em ser ouvido.