Miart 2026: O reencontro com a pintura figurativa e a solaridade renovada dos anos 80
Miart 2026 renova o gosto pelo figurativo: solaridade, pop e neo-futurismo marcam a feira no Allianz MiCo, em Milão.
RESUMO ✦
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Miart 2026: O reencontro com a pintura figurativa e a solaridade renovada dos anos 80
Por Chiara Lombardi - Em Milão, o anteprima de Miart 2026 no espaço Allianz MiCo, junto às Torres do CityLife, foi mais do que um sucesso de público: revelou um verdadeiro reframing do cenário artístico contemporâneo. Senti ali o pulsar de um tempo novo, onde a pintura figurativa reaparece em toda a sua riqueza expressiva — do expresssionismo ao surrealismo, do hiper-realismo ao que poderíamos chamar de classicismo mágico. Esse retorno não é um revival nostálgico; é um reencontro crítico com as raízes criativas do pop e com a energia estética dos anos 50 e 60, atualizada pelas tecnologias e pelo design.
Vivemos um momento em que a arte parece buscar uma linguagem mais direta, calorosa e lúdica. O gosto pelo reduzionismo onírico dos boxes neo-teatrais e pelas obras situacionistas do “minimalismo parietal” convive com peças de grande efeito cromático e narrativa. Há uma saída do confinamento intelectualista que dominou parte das últimas décadas: vemos uma reinvenção da paleta como força vital, solar e participativa — um eco cultural que reaproxima pintura, objeto e espectador.
Um exemplo emblemático é Next Summer, de Carole Feuerman, cuja simplicidade luminosa tem o efeito de um espelho do nosso tempo: figurativo, pop e, ao mesmo tempo, profundamente contemporâneo. A feira demonstra que a Itália e suas melhores galerias continuam a funcionar como um verdadeiro cruzamento internacional de qualidade artística, sustentando um diálogo global que vai de Nova York a Genebra, da Espanha à China.
Nesse cenário de transformação, a arte se apresenta como algo neo-futurista: entretém, provoca e estabelece relações orgânicas com a contemporaneidade e a experimentação. É possível identificar desde o pop exultante de Rosa Barba até a ironia icônica de Flavio Favelli; da pintura lírica e imaginativa da georgiana Bukia Vakhania à profunda italianidade de Nazar Strelgaev Nazarko. Surpresas vêm também do retorno da chamada “Scuola Italiana”, com nomes como Alessandro Sicioldr, Mimmo Scognamiglio e Sara Berman.
O espírito de festival estético se completa com a leveza de Pae White, o pop-antipop de Stefano Perrone, o hiper-glitter vitalístico de Shinj Nagabe e o theatrum mundi de Keni Sugyama. A Primo Marella Gallery, entre outras, sintetiza com eficácia essa riqueza expressiva, demonstrando como o figurativo atual pode ser simultaneamente internacional, duradouro e compartilhável — reforçado por presenças como Ruben Pang.
Entre os destaques que confirmam a diversidade curatorial estão o leito verde de Patrizio Di Massimo, a surpreendente Chevrolet de 1938 que transporta uma nuvem num carro funerário e o lirismo orgânico-inorgânico promovido pela WhatifThewordl Gallery. Também notáveis são as investidas do “finto arqueológico” (Christian Jankowsky, Graziano Pompili), a hiper-ilustração de Walter Robinson e a visão meta-real de Giovanni Ozzola.
Miart 2026, portanto, não é apenas uma feira: é o roteiro oculto de uma mudança de maré estética. Vemos um retorno ao figurativo como força renovadora, uma celebração da solaridade e do lúdico que rescata a criatividade pop das suas origens sem cair em nostalgia. Em um tempo em que a arte frequentemente busca ser espelho e bússola, Miart nos lembra que a imagem figurativa continua a ter o poder de traduzir — com graça, ironia e contundência — o que somos e o que estamos nos tornando.