Da tese sobre Ken Loach ao prêmio no Salone: como Michela Santoro transformou a livraria Idrusa no coração do Salento
Como a livraria Idrusa e Michela Santoro transformaram a periferia do Salento em laboratório cultural premiado no Salone del Libro.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Da tese sobre Ken Loach ao prêmio no Salone: como Michela Santoro transformou a livraria Idrusa no coração do Salento
Por Chiara Lombardi — Em um país onde fechar bibliotecas muitas vezes vira manchete e índices de leitura flertam com o pessimismo, a história de Michela Santoro e da livraria Idrusa soa como um pequeno, resiliente roteiro de resistência cultural. Fundada em Alessano, uma comuna de cerca de 6.000 habitantes na província de Lecce, a livraria surgiu em 2004 num contexto que, à primeira vista, anunciava fracasso: bibliotecas fechadas, baixo hábito de leitura e periferia geográfica. O que veio depois foi a transformação desse aparente epílogo em um novo começo.
Michela retorna à sua narrativa pessoal para contar a gênese do projeto. Formada em Letras em Pisa, com uma tese sobre Ken Loach, e experiência universitária e cinematográfica — inclusive como assistente de direção em filmes de Aldo, Giovanni e Giacomo — ela não voltou para Alessano por nostalgia. Voltou com a consciência de que faltava um espaço físico de referência. Assim nasceu a Idrusa, batizada não ao acaso com o nome de uma martírio local: um gesto que já posicionava a livraria como dispositivo de memória e pertença.
Desde o princípio, a aposta não foi numa vitrine para leitores eruditos, mas em um lugar de inclusão: um laboratório cultural ancorado no território. A proposta era simples e ambiciosa ao mesmo tempo — conectar autores, leitores e o público indiferente por meio de conversas, formações e intervenções públicas. Só que, como em muitos filmes que conhecemos, os atos iniciais foram de tensão: nos primeiros três anos, as vendas foram quase inexistentes.
O ponto de virada veio quando a livraria decidiu sair de seus limites físicos. Leitura em voz alta nas escolas, formação de professores e operadores culturais, eventos nas praças e uma presença constante na vida comunitária foram compondo um novo roteiro. Aos poucos, formou-se uma comunidade de leitores. Hoje, a Idrusa é reconhecida como o último ponto de venda de livros no extremo sudeste da Puglia — um lugar que transforma a periferia numa frente ativa de produção cultural.
O festival Armonia. Narrazioni in terra d’Otranto é um capítulo chave dessa história. Lançado em 2015 a partir do encontro com Mario Desiati, o festival nasceu da vontade de articular os autores que frequentavam a livraria com o patrimônio material e simbólico do território. A iniciativa cresceu e, desde 2018, firmou parceria com a Fondazione Bellonci, trazendo ao extremo do Capo di Leuca a "dozzina" do Premio Strega. A colaboração com o Premio Calvino ampliou ainda mais o leque, dando visibilidade a vozes emergentes.
Em maio de 2026, essa trajetória de persistência ganhou um reconhecimento público: no Salone del Libro di Torino, Michela recebeu o prêmio Straordinaria da ALI Confcommercio, distinção que celebra o trabalho quotidiano, social e cultural das livrarias italianas. O prêmio, escolhido também pelo público — com mais de 10 mil preferências —, sela o que já era visível no terreno: a capacidade de traduzir um cenário adverso em rede, experiência e institucionalidade cultural.
Como analista cultural, enxergo na história da Idrusa mais do que um caso de sucesso local. É um espelho do nosso tempo: o modo como se reconstrói uma comunidade através do livro revela o roteiro oculto das transformações sociais. A livraria deixou de ser apenas um ponto de venda para se tornar centro de formação, memória e cocriação — uma prática que reframes a percepção do Sul, longe dos estereótipos consolidados.
Em 2026, com o festival que parte no dia 21 de maio em Specchia e segue até outubro, reunindo vozes como Ilan Pappè para os "Discorsi mediterranei" em Santa Maria di Leuca, a Idrusa confirma sua vocação: não só preservar o livro, mas devolver à comunidade a potência narrativa de seu próprio território. Uma lição elegante e prática: a cultura, quando bem articulada, é um território aberto — e às vezes a última livraria de uma região pode ser o primeiro ato de um novo roteiro.