Michele Mari vence o Premio Strega 2026 com 'I convitati di Pietra' (Einaudi)
Michele Mari vence o Premio Strega 2026 com 'I convitati di Pietra' (Einaudi). Vitória que reenquadra amizade, pacto e memória na literatura italiana.
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Michele Mari vence o Premio Strega 2026 com 'I convitati di Pietra' (Einaudi)
Por Chiara Lombardi — Em uma noite que funcionou como um espelho do nosso tempo para a literatura italiana, Michele Mari foi consagrado vencedor da 80ª edição do Premio Strega com I convitati di Pietra, publicado pela Einaudi. A obra recebeu 190 votos da júri presidida por Andrea Bajani, que já chegou ao palco como vencedor da edição anterior para supervisionar a apuração dos últimos 100 votos.
A cerimônia, realizada na histórica Piazza del Campidoglio e transmitida pela Rai3, teve apresentação de Pino Strabioli e Gloria Campaner. Entre os convidados estavam figuras institucionais como o ministro da Cultura Alessandro Giuli, o prefeito de Roma Roberto Gualtieri, o assessor à Cultura Massimiliano Smeriglio e o presidente da Comissão Cultura da Câmara, Federico Mollicone.
O vencedor agradeceu à editora Bompiani, à sua agente e a Vittorio Lingiardi pela apresentação, antes de convidar ao palco sua esposa e os filhos para uma declaração de afeto em público. Aos 70 anos, Michele Mari — ex-professor de literatura italiana na Università Statale di Milano — afirmou que, embora I convitati di Pietra não seja necessariamente o livro com o qual sonhava vencer o prêmio, cada título de um autor é como um filho: 'peças do coração e da alma'.
Do ponto de vista narrativo, Mari descreve o romance como 'cínico' e 'sádico'. O enredo parte de uma amizade de liceais que, após o diploma, firmam um pacto: cada um contribuirá anualmente para um fundo que será reclamado pelos três últimos sobreviventes. O que começa como uma brincadeira juvenil transforma-se em uma espécie de lógica darwiniana da convivência, expondo clivagens íntimas, rivalidades e lealdades que se corroem com o tempo. Mari admite ter se baseado no mecanismo narrativo de 'Dieci piccoli indiani' de Agatha Christie e revela que o livro foi escrito em menos de um mês.
A votação envolveu uma base de 800 eleitores, dos quais 80,4% compareceram, totalizando 643 votos válidos. Na apuração, os indicados que seguiram Mari foram: Matteo Nucci com 'Platone. Una storia d'amore' (Feltrinelli) com 152 votos; Bianca Pitzorno com 'La sonnambula' (Bompiani) com 84 votos; Alcide Pierantozzi com 'Lo sbilico' (Einaudi) com 78 votos; Teresa Ciabatti com 'Donnaregina' (Mondadori) com 75 votos; e Elena Rui com 'Vedove di Camus' (L'orma) com 64 votos.
Mais do que um prêmio, a vitória de Michele Mari projeta um reframe da realidade literária: um autor veterano que faz do jogo—e do abuso de confiança entre personagens—um estilema para sondar memórias e identidades coletivas. A imagem do pacto juvenil que se torna armadilha é, em sua escrita, o roteiro oculto da sociedade, onde promessas formam-se como contratos narrativos que depois exigem cobrança.
Na celebração idealizada pelos coniugi Bellonci, o palco romano ofereceu, além do brilho institucional, a percepção de que os grandes prêmios não apenas coroam livros, mas reativam debates sobre formas narrativas e sobre o que queremos lembrar — ou enterrar — do nosso passado.