Michelle Pfeiffer escolhe papéis por instinto e reaparece em duas séries que exploram a maternidade e o luto

Michelle Pfeiffer volta à TV em duas séries: maternalidade em The Madison e o universo de Margo; agora escolhe projetos por instinto.

Michelle Pfeiffer escolhe papéis por instinto e reaparece em duas séries que exploram a maternidade e o luto

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Michelle Pfeiffer escolhe papéis por instinto e reaparece em duas séries que exploram a maternidade e o luto

Depois de mais de quatro décadas de carreira em que o cinema foi sempre seu grande amor, Michelle Pfeiffer parece estar reescrevendo pequenos capítulos de sua trajetória: aceitou, sem grandes planejamentos, papéis para a televisão e deixou que o instinto guiasse sua escolha. Essa mudança, admite a atriz, foi uma bênção para quem costuma ruminar demais.

Recentemente, Pfeiffer se dividiu entre dois universos televisivos muito diferentes: de um lado The Madison, spin-off de Yellowstone, já disponível em Paramount+; do outro, Margo (título original Margo ha problemi di soldi), que estreou em 15 de abril pela Apple TV e reúne um elenco estelar — Elle Fanning, Nicole Kidman, Nick Offerman e Greg Kinnear, além da própria Pfeiffer.

Entre os aspectos curiosos dessa volta ao pequeno ecrã está a colaboração com David E. Kelley, criador de Margo e marido de Pfeiffer. Apesar da promessa — feita no passado — de não misturar vida pessoal e profissional (ela chegou a dizer que viu casais cuja união desabou após trabalharem juntos), Kelley encontrou no romance de Rufi Thorpe a voz ideal para a protagonista: na sua imaginação, apenas uma atriz poderia encarnar o papel — a esposa. Felizmente, o trabalho em conjunto não trouxe rupturas, mas sim uma nova cumplicidade criativa.

Margo acompanha a personagem-título, interpretada por Elle Fanning, que ao engravidar abandona a faculdade e passa a construir uma carreira fora dos padrões em uma plataforma on-line com ecos de OnlyFans. Em oito episódios, a trama desenha a tensão entre escolhas pessoais e as tentativas dos pais de orientar a jovem em tempos ambíguos. Pfeiffer dá vida a Shyanne, uma mulher com passado de garçonete na rede Hooters; ao lado dela, Nick Offerman interpreta Jinx, um ex-wrestler. O cenário é um painel sobre gerações, trabalho e as novas economias do desejo — um verdadeiro espelho do nosso tempo.

Já em The Madison, Pfeiffer é Stacy Clyburn, uma viúva recente que, após a perda do marido Preston (interpretado por Kurt Russell), muda a família de Nova York para o Montana na tentativa de reconstruir uma vida despedaçada. A primeira temporada concentra-se em apenas seis dias de luto, oferecendo um mergulho concentrado na fragilidade e nos mecanismos de cura. No set, a atriz reencontrou Kurt Russell 38 anos após o sucesso de Tequila Sunrise — e comenta, com aquele olhar atento à memória, que Russell mantém o mesmo espírito generoso e vivaz de outrora.

Em ambas as séries, Michelle Pfeiffer fornece ao personagem a sua vocação materna — não como um adereço melodramático, mas como uma força política contra os narcisismos contemporâneos. Sua atuação funciona como um reframe: a figura materna aparece tanto para acolher quanto para confrontar, ocupando um lugar central no roteiro oculto que revela valores e contradições da nossa época.

Se antes Pfeiffer dava prioridade quase exclusiva ao cinema, hoje ela admite escolher projetos d’instinto — uma postura que dialoga com a maturidade artística e com o desejo de participar de narrativas que espelhem transformações sociais. Em tempos em que o entretenimento age como um eco cultural, suas novas escolhas sugerem que a intérprete não busca apenas papéis, mas provocações: como o conteúdo pop refrata nossas memórias e redefine a noção de família e trabalho.

Para quem acompanha a carreira da atriz, a transição tem o sabor de um movimento calculado pelo coração e não pela agenda — um tipo de direção artística que, no fundo, é também um manifesto sobre o que o cinema e a televisão podem ser quando se deixam guiar pelo instinto e pela verdade humana.