Morre Bruno Castiglia, voz dos Bisonti — ícone do beat de Milão nos anos 60

Morre Bruno Castiglia, fundador e voz dos Bisonti, ícone do beat de Milão nos anos 60; relembre sua trajetória e a canção 'Crudele'.

Morre Bruno Castiglia, voz dos Bisonti — ícone do beat de Milão nos anos 60

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Morre Bruno Castiglia, voz dos Bisonti — ícone do beat de Milão nos anos 60

Por Chiara Lombardi — É com um sentimento de perda e de memória coletiva que registramos a morte de Bruno Castiglia, fundador e principal voz dos Bisonti, a histórica banda do beat nascida em Milão nos anos sessenta. Castiglia, que conduziu a sonoridade do grupo e o tornou reconhecível entre os fãs do circuito beat italiano, faleceu em 22 de março de 2026.

Os Bisonti surgiram em Milão por iniciativa de Bruno Castiglia. A formação original, registrada em 1965, reunia Castiglia na voz e na guitarra, Gianni Calabria na bateria, Ennio Castiglia no baixo, Angelo Milani nos teclados e Luigi Biagioni na guitarra. Essa configuração simbolizou uma época em que a cena musical era um espelho do nosso tempo — um roteiro sonoro que misturava referências britânicas e o lirismo italiano.

Entre os marcos da discografia da banda, destacou-se o primeiro single de 1967, "Con Le Mie Lacrime", versão de As Tears Go By dos Rolling Stones, que já mostrava a habilidade dos Bisonti em reinterpretar o repertório anglo-saxão com um verniz melodioso tipicamente italiano. Em 1968, a banda lançou outro 45 rpm que incluía um dos seus temas mais lembrados, "Occhi Di Sole", expressão emblemática do beat melódico italiano.

Além desses títulos, o grupo gravou canções como "Ma se ci penso" e uma versão de "Lucille", hit popularizado por Little Richard. Ainda assim, a faixa que se transformou em cartão de identidade da banda foi "Crudele", um tema que consolidou os Bisonti no imaginário dos fãs e lhes devolveu visibilidade duradoura entre os cultores do gênero.

O percurso dos Bisonti, como tantos históricos grupos da época, passou por transformações de formação e por altos e baixos, mas manteve uma presença cênica e afetiva: nos últimos anos, a banda ainda se apresentava esporadicamente, preservando um legado que dialoga com as memórias coletivas dos anos sessenta. A trajetória de Castiglia e dos Bisonti é, nesse sentido, um pequeno arquivo vivo — uma semiótica do viral antes da era digital, quando uma canção circulava por clubes, rádios e festas, moldando identidades.

Como observadora do zeitgeist cultural, não vejo essa notícia apenas como o relato do fim de uma vida, mas como um convite a revisitar o que essas melodias disseram sobre uma época. A voz de Bruno Castiglia e o refrão de "Crudele" continuam sendo, de certa forma, um espelho do nosso tempo: recordações sonoras que ajudam a interpretar as mudanças sociais e estéticas que atravessaram a Itália e a Europa nas últimas seis décadas.

À família, aos antigos companheiros de palco e aos fãs dos Bisonti, fica nosso reconhecimento por preservar um repertório que permanece relevante. E para o público contemporâneo: a discografia do grupo continua a ser uma pequena biblioteca afetiva, pronta para reler o roteiro oculto da sociedade através de acordes e letras que ecoam até hoje.