Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e guardião do Futurismo, aos 90 anos

Morre em Roma o intelectual Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e dirigente da Quadriennale; funeral segunda-feira às 15h.

Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e guardião do Futurismo, aos 90 anos

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Morre Gino Agnese, biógrafo de Marinetti e guardião do Futurismo, aos 90 anos

Gino Agnese fechou os olhos pela última vez nesta manhã em Roma. Intelectual multifacetado — ensaísta, jornalista e historiador da arte — Agnese construiu uma carreira que foi, em muitos sentidos, um espelho do nosso tempo cultural. Tinha 90 anos, completados em 10 de março, celebrados em sua casa romana ao lado da esposa Rosanna. O velório e as celebrações fúnebres ocorrerão na igreja dos Santi Angeli Custodi, em Piazza Sempione; o funeral está marcado para segunda-feira às 15h.

Nascido em Nápoles, Agnese trouxe consigo a energia criativa e o tempero anticonformista da napolitanità, traços que permeavam suas leituras sobre arte e cultura. Ainda jovem frequentou o atelier de Emilio Notte e, após um começo irregular nos estudos, abraçou o jornalismo e a militância política na Giovane Italia. Mudou‑se para Roma nos anos 1960 e ali estabeleceu não apenas seu lar — um ateliê com vista para a eclética cúpula da mencionada igreja — mas também seu horizonte intelectual.

Em 1982 fundou a revista Mass Media, uma publicação que antecipou tendências e debates que depois se tornariam centrais nas várias formas de comunicação. Com faro para conexões internacionais, Agnese convocou colaboradores como Derrick de Kerckhove, Andrei Tarkovskij, Robert White e Armand Mattelart, transformando a revista em um terreno fértil de encontro entre crítica, teoria e prática cultural. Em 1995, quando a internet ainda estava engatinhando na Itália, ele organizou e dirigiu um importante evento em Montecitorio que confirmou seu papel de ponte entre inovação e instituição.

Seu percurso jornalístico também foi marcado por décadas de colaboração com o diário Il Tempo, onde atuou como enviado especial e editorialista por cerca de trinta anos, depois de começar sua carreira em Il Secolo d'Italia. A trajetória pública de Agnese uniu reportagem e ensaio com erudição, resultando em uma obra crítica que manteve consistente interesse pelas vanguardas europeias.

Mas foi como estudioso do Futurismo que Agnese deixou impressa sua marca mais duradoura. Considerado o primeiro e fundamental biógrafo de Filippo Tommaso Marinetti — autor de Marinetti: uma vida explosiva (1990) — e de Umberto Boccioni (Vita di Boccioni, 1996), Agnese explorou, com estilo narrativo leve e preciso, as reverberações russas na obra dos futuristas. Seu livro mais recente, Il colbacco di Boccioni, publicado em abril passado pela Rubettino, subtitulado “Um longo fio russo”, investiga a viagem de Boccioni a Tzaritsyn e a presença de correntes russas na biografia do artista — um roteiro oculto que Agnese soube desenhar com a sensibilidade de quem lê a arte como documento social.

Nos últimos anos, manteve intensa atividade de pesquisa: trabalhava com afinco na biografia de Francesco Cangiullo, poeta, pintor e músico, aprofundando aspectos menos conhecidos da modernidade italiana. Paralelamente, sua presidência na Quadriennale di Roma, entre 2002 e 2012, consolidou um legado institucional: sob sua direção a fundação ganhou nova sede em Villa Carpegna, abrigando Biblioteca e Arquivo Histórico, e reafirmou a centralidade de Roma como palco de debate sobre arte contemporânea.

A partida de Gino Agnese é mais do que o fim de uma voz autoral; é a perda de um tradutor sensível entre memórias artísticas e o presente. Como uma película que registra uma cena em múltiplos enquadramentos, sua obra ajuda a reconfigurar a narrativa do século XX, lembrando que o entretenimento e a estética sempre foram também território de ideologias, encontros e deslocamentos. Em seu trabalho, o Futurismo não foi mera nostalgia, mas uma lente para ler os paradoxos da modernidade.

O adeus a Agnese será celebrado por familiares e colegas, mas sua verdadeira permanência se dará nas páginas que escreveu, nas exposições que ajudou a estruturar e nas biografias que iluminam trajectórias complexas. Em tempos que procuram refazer o roteiro da memória cultural, o legado de Agnese permanece um convite: olhar além da superfície e decifrar o fio que liga arte, política e desejo de futuro.