Morre Marjane Satrapi, autora de Persepolis, aos 56 anos em Paris

Morre em Paris Marjane Satrapi, autora de Persepolis, aos 56 anos; artista franco-iraniana deixa legado nas HQs e no cinema.

Morre Marjane Satrapi, autora de Persepolis, aos 56 anos em Paris

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Morre Marjane Satrapi, autora de Persepolis, aos 56 anos em Paris

Morreu hoje em Paris a artista e autora franco-iraniana Marjane Satrapi, conhecida mundialmente por Persepolis, sua graphic novel autobiográfica que virou um filme aclamado. A notícia foi confirmada pelo seu entorno e divulgada pelo jornal francês Le Parisien.

Num comunicado familiar transmitido à agência AFP lê‑se que Satrapi «morreu de dor», pouco mais de um ano depois da perda de Mattias Ripa, seu marido e declarado amor da sua vida. Ripa, produtor, ator e roteirista sueco, faleceu em 8 de abril de 2025 aos 53 anos. Desde então, a artista não teria conseguido recuperar-se do luto.

O perfil de Satrapi no Instagram, que antes era repleto de imagens e vídeos, transformou‑se num testemunho público de sua dor: a conta foi esvaziada de posts antigos e passou a concentrar memórias do companheiro. Entre 21 de abril de 2025 e 23 de fevereiro de 2026 foram apenas dez publicações — do retrato do marido com as datas de nascimento e morte até uma foto de arquivo em preto e branco na qual eles aparecem sorrindo, na qual anunciavam a criação da Fundação Cinema Mattias e Marjane Ripa‑Satrapi, destinada a apoiar estudantes estrangeiros que desejam estudar cinema em Paris. Intercaladas, imagens com palavras em rosa sobre fundo preto formavam a sequência lacônica: "For. I. Lost. The. Love. Of. My. Life".

Nascida em Rašt, às margens do Mar Cáspio, a 22 de novembro de 1969, Marjane Satrapi cresceu em Teerã numa família politicamente engajada, de origem azeri e com ligações ancestrais ao xá Nasser al‑Din. A vivência na infância — marcada pela Revolução Islâmica de 1979 e pela virada cultural que impôs o regime de Khomeini — foi o material inicial de sua obra. Enviada para Viena pelos pais durante a adolescência para escapar à crescente islamização, viveu um período de exílio que moldou sua visão crítica sobre identidade, memória e pertencimento.

De volta ao Irã, matriculou‑se na Academia de Belas‑Artes de Teerã antes de fixar residência em Paris, em 1994, onde viveu por cerca de três décadas. A experiência pessoal, entre a revolta política e o refúgio europeu, alimentou as páginas em preto e branco de Persepolis, publicadas entre 2000 e 2003. O título, que evoca a antiga cidade persa, tornou‑se um espelho do seu país e da sua história íntima — um verdadeiro roteiro oculto da sociedade iraniana visto pelas lentes de uma narradora que transformou memória em imagem.

Em 2007, Persepolis foi adaptado para o cinema por Vincent Paronnaud e dirigido em coautoria com Satrapi, num longa‑metrado de animação que conquistou público e crítica, consolidando sua voz além das páginas do quadrinho. A obra permaneceu como referência sobre exílio, ensino histórico e liberdade artística.

Ao longo de sua vida, Satrapi também enfrentou crises profundas, incluindo episódios de vagabundagem e alcoolismo, dos quais saiu para reafirmar uma carreira singular entre quadrinho, cinema e escrita. Hoje o mundo cultural perde não apenas uma autora premiada, mas uma observadora que, com traço firme e olhar afiado, traduzia o tempo e o lugar em imagens que perguntavam pelo nosso presente.

As circunstâncias detalhadas do falecimento foram comunicadas pela família; o corpo e as homenagens públicas ainda não tiveram local ou horário divulgados.