Morre David Riondino, o criador de 'Maracaibo' e figura multifacetada da cena italiana

Morreu David Riondino, artista multifacetado e autor de Maracaibo. Aos 73 anos, deixa legado na música, cinema e teatro italiano.

Morre David Riondino, o criador de 'Maracaibo' e figura multifacetada da cena italiana

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Morre David Riondino, o criador de 'Maracaibo' e figura multifacetada da cena italiana

Morreu aos 73 anos o artista italiano David Riondino. A notícia foi confirmada pela amiga e artista Chiara Rapaccini em publicação nas redes sociais. O músico, ator, escritor e encenador faleceu em sua residência em Roma, após anos de luta contra uma doença grave. Os funerais serão realizados na terça-feira, às 11h, na Chiesa degli Artisti em Piazza del Popolo, Roma.

Natural de Florença, nascido em 10 de junho de 1952, David Riondino construiu uma trajetória que atravessou cenas e linguagens: partiu de uma formação como bibliotecário e converteu esse hábito de leitor em uma prática artística polivalente. Sua carreira ganhou maior visibilidade nacional graças às improvisações brilhantes no Maurizio Costanzo Show e às suas paródias inspiradas nos cantautores brasileiros, que se tornaram marca registrada de seu humor erudito.

No repertório popular permanece, sobretudo, a canção Maracaibo, cuja paternidade artística Riondino reivindicou com veemência ao longo dos anos. Paralelamente à música, atuou em cinema e televisão, participando de títulos como Vacanze di Natale e Kamikazen - Ultima notte a Milano. Em 1995 subiu ao palco do Festival de Sanremo ao lado de Sabina Guzzanti com o tema "Troppo sole".

A vida pessoal de Riondino também era marcada por laços afetivos estáveis: era casado desde 2012 com Giovanna Savignano e tinha uma filha, Giada, nascida em 1974, de um casamento anterior.

A lembrança pública que o cerca mescla vivências políticas e artísticas. Em Florença fundou o grupo Victor Jara, batizado em homenagem ao cantautor chileno assassinado — um gesto que já delineava seu compromisso com uma cultura de resistência. Chiara Rapaccini recorda os anos de música nas case del popolo e nas feste dell'unità, quando o coletivo era um espaço tanto de festa quanto de projeto político. "David era o nosso chefe visionário", escreve Rapaccini, em um retrato que tem a tonalidade nostálgica de quem conta uma cena coletiva do passado.

Quem trabalhou com ele destaca a inteligência associada ao caráter lúdico: o humor e a erudição conviviam no palcos e estúdios. Para Dario Vergassola, com quem Riondino desenvolveu um longo e fecundo vínculo artístico, cada espetáculo representava um exame de profundidade — uma metáfora que revela a densidade cultural de suas propostas teatrais, como I Cavalieri del Tornio e Todos Caballeros.

Ao longo das décadas, o campo de atuação de David Riondino atravessou a música, o teatro, o cinema e as páginas de revistas de contracultura e sátira. Colaborou com publicações históricas como Tango, Cuore, Comix, Linus e, mais adiante, com Il Male e L'Unità. Na efervescência dos anos 70 gravou com o Collettivo Victor Jara dois discos destinados aos círculos culturali e politici daquele tempo.

O legado de Riondino é o de um artista que encarnou o papel do intérprete-espelho de sua época: sua obra funcionou como um roteiro oculto da sociedade, onde humor, política e memória se entrelaçaram. A morte de David Riondino fecha um capítulo importante da cultura italiana contemporânea, deixando um eco que atravessará palcos, estações de rádio e lembranças pessoais. Em um mundo onde o entretenimento é também forma de reflexão, sua partida convida a reavaliar o que significa ser artista público — e por que algumas canções, como Maracaibo, resistem no imaginário coletivo.

Os amigos, parceiros de palco e fãs têm até terça-feira para se despedir pessoalmente na Chiesa degli Artisti. A cena final, por ora, é essa: uma cidade que o recebeu e que agora o acompanha em seu último ato público.