Murakami: por que minha escrita escapa à inteligência artificial em 'A história de Kaho'

Murakami defende que sua escrita humana em 'A história de Kaho' é distinta da inteligência artificial; novo livro estreia com filas no Japão.

Murakami: por que minha escrita escapa à inteligência artificial em 'A história de Kaho'

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Murakami: por que minha escrita escapa à inteligência artificial em 'A história de Kaho'

Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que é quase um manifesto sobre criação literária, Haruki Murakami afirmou que sua obra é “completamente diferente” do que a inteligência artificial pode produzir. O comentário acompanha o lançamento de A história de Kaho, o primeiro romance do autor em que uma mulher assume o papel central — e que chegou às prateleiras do Japão com filas e leituras noturnas celebrando a estreia.

No diálogo com a agência Kyodo, Murakami sublinhou um ponto que reverbera como um espelho do nosso tempo: enquanto a IA opera a partir de um vasto repositório de padrões e analogias do que já aconteceu, o processo criativo humano busca aquilo que rompe o roteiro previsível. “A IA leva em conta tudo o que aconteceu até agora e estabelece analogias”, disse ele. “Mas os processos com que eu escrevo os romances são completamente diferentes.”

Essa distinção não é mera retórica. O avanço dos modelos generativos tornou possível que algoritmos gerem narrativas completas em segundos — uma façanha técnica que, porém, esbarra no problema do novo: o escritor, segundo Murakami, é chamado a “fazer emergir algo de novo que de repente surge na mente”. É esse lampejo, esse encontro súbito com uma paisagem interior, que o autor vê como impossível para um sistema que depende de similaridades prévias.

Conhecido internacionalmente por obras como Tokyo Blues e Kafka na Praia, Murakami construiu uma poética de labirintos, solidão e pequenas rupturas com o cotidiano — o que muitos nomeiam, no Ocidente, como uma forma de realismo mágico. Seus personagens, explicou, muitas vezes aparecem “de improviso”, como se fossem recortes de um roteiro oculto da sociedade que o autor apenas descobre. “Não é algo que nasce de analogias. Provavelmente a IA não consegue fazer isso”, afirmou.

Sobre A história de Kaho, a editora Shinchosha destacou que, pela primeira vez, Murakami coloca uma mulher no centro. Em entrevista ao diário Asahi, o escritor contou que teve a sensação de ver o mundo “através de olhos diferentes” — uma experiência artística que ele relaciona ao período que passou no Wellesley College, uma universidade feminina nos Estados Unidos. “Atualmente se valorizam muito os pontos de vista femininos, e acredito que a imersão naquele ambiente influenciou Kaho”, disse.

Murakami também recordou que, ao escrever Kafka na Praia, enxergou o mundo pelos olhos de um rapaz de quinze anos, reforçando a ideia de que o romancista pode, por meio de empatia e construção imagética, tornar-se “qualquer coisa”. É essa elasticidade interior — essa capacidade de reencenar vidas diversas — que, para ele, distingue a escrita humana do mecanismo algorítmico.

A chegada do livro às livrarias japonesas foi marcada por leituras noturnas, filas desde a meia-noite e reconcílios coletivos com a leitura física: cenas que lembram uma premiere cinematográfica, onde o público busca mais do que enredo — busca um laço com o tempo cultural. Em tempos de automação criativa, a estreia de A história de Kaho funciona como um pequeno protesto literário: a obra nos lembra que a arte é, antes de tudo, o lugar onde o imprevisto humano continua a escrever o roteiro do nosso tempo.