No Museu de San Marco, “O Bestiário Fantástico” revela os códices miniados da Biblioteca de Michelozzo
Museo di San Marco abre 'La Biblioteca svelata: il bestiario fantastico' com códices miniados e dragões que conectam medieval e cinema contemporâneo.
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No Museu de San Marco, “O Bestiário Fantástico” revela os códices miniados da Biblioteca de Michelozzo
Por Chiara Lombardi — O Museo di San Marco de Florença inaugura uma exposição que funciona como uma lente sobre séculos de imaginação ilustrada: La Biblioteca svelata: il bestiario fantastico. Aberta ao público a partir de sábado, 11 de abril, a mostra-dossiê é a primeira dedicada especificamente aos codici miniati da monumental biblioteca projetada por Michelozzo no Quattrocento — um dos primeiros exemplos de biblioteca pública em toda a Europa.
Promovida pela Direzione regionale Musei nazionali della Toscana do Ministério da Cultura e coordenada cientificamente por Marco Mozzo, diretor do Museu, a exposição foi curada por Sara Fabbri, Sara Ragazzini e Anna Soffici. O projeto inaugura uma nova estratégia de valorização do patrimônio bibliográfico do complexo: exposições temáticas que destacam núcleos específicos da coleção, em diálogo com um programa mais amplo de renovação museal que inclui reallestimentos e intervenções direcionadas para aumentar a fruição pública.
O percurso atravessa o imaginário ilustrado entre os séculos XIII e XVI, explorando o bestiário fantástico medieval e renascentista — uma galeria de híbridos e arquétipos: dragões, basiliscos, unicórnios, harpias e fênixes. O dragão, figura axial da mostra, é narrado em sua longa metamorfose cultural, desde o caos primordial dos mitos mesopotâmicos até a codificação cristã que o transformou em símbolo do mal a ser vencido pelos santos guerreiros. É um verdadeiro roteiro oculto da memória coletiva, onde cada imagem funciona como um espelho do nosso tempo e da forma como as culturas reformulam crenças e perigos.
O alestimento destaca também a estratificação histórica da biblioteca: manuscritos de matriz bizantina e gótica, as drôleries do tardo-gótico, e os códices mediceos iluminados por Zanobi Strozzi e Monte di Giovanni, com aparatos iconográficos progressivamente mais complexos e narrativos. Entre os objetos mais notáveis estão corais e graduais oriundos de conventos distintos, hoje conservados e exibidos em rodízio. Tudo contribui para transformar o livro miniado de mero objeto de arquivo em dispositivo vivo de visão e imaginação.
Em filigrana, a exposição evidencia a continuidade de um imaginário que atravessa os séculos e chega às reinterpretações contemporâneas na literatura e no cinema fantástico. Assim, a biblioteca torna-se um teatro simbólico do saber — uma espécie de set onde o público é convidado a reencenar mitos e a revisitar iconografias que ainda informam nossas narrativas visuais.
O lançamento ocorre em um momento de efervescência para o museu: recentemente reabriu a Sala do Beato Angelico e foi instalada uma seção especial da mostra "Rothko a Firenze", que coloca cinco obras do artista em diálogo com os afrescos de Angelico em cinco celas-chave do percurso. Dentro desse quadro, o novo projeto expositivo amplia o foco sobre a Biblioteca e a colecção de livros miniados como componente essencial do patrimônio de San Marco — um patrimônio que, como todo bom filme, nos pede que olhemos para além da superfície e perguntemos o porquê das imagens que nos habitam.
Edificada por volta de 1440 por vontade de Cosimo de' Medici, a biblioteca nunca foi apenas um depósito de volumes: é um espaço de circulação de ideias, um palco onde o bestiário fantástico revive, redimensionando o passado em imagens que continuam a ressoar nas artes visuais e no imaginário coletivo contemporâneo.