Quando os botões viram arte: Noemi Martinelli transforma objetos do cotidiano em símbolo de vazio e liberdade
Noemi Martinelli transforma botões em arte: símbolos de vazio e liberdade exibidos na Galleria Ess&rrE em Ostia.
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Quando os botões viram arte: Noemi Martinelli transforma objetos do cotidiano em símbolo de vazio e liberdade
Por Chiara Lombardi — Em uma leitura sensível do cotidiano, a jovem artista romana Noemi Martinelli reconduz um objeto banal — o botão — ao território da arte e da reflexão. Expostos na mostra coletiva Respiro del colore, na Galleria Ess&rrE em Ostia, seus quadros revelam como um elemento tão corriqueiro pode funcionar como um espelho do nosso tempo e do roteiro oculto da sociedade.
No trabalho de Martinelli, o botão deixa de ser apenas utilitário para assumir uma carga semiótica: torna-se símbolo de vazio e liberdade. A artista parte da observação íntima — ver os botões presos à roupa, perdidos entre tecidos ou esquecidos em gavetas — e pensa que esses fragmentos «mereciam ser arte». Desta pequena epifania nascem telas que exploram a tensão entre abrir e fechar, abotoar e desabotoar, como gestos carregados de significado.
As obras de grande formato privilegiam a ideia da clausura — cores frias, composições que sugerem contenção, figuras femininas com cabelos presos, como se o gesto de fechar fosse uma armadura. Em contraponto, as peças que evocam abertura trabalham paletas quentes e figuras de cabelos soltos, uma narrativa pictórica que sugere alívio, expansão e possibilidade. Entre esses polos, há uma interpretação intermediária — a preferida da artista — na qual os botões se entrelaçam aos cabelos, materializando o eterno movimento de abrir e fechar, de exposição e recuos.
Nas obras menores, Martinelli torna explícito o duplo papel do botão: em peças de tons quentes, o botão remete ao vazio e à liberdade; em composições mais frias, funciona como instrumento de proteção, quase uma máscara contra a vergonha. É uma iconografia simples, mas potente — onde o gesto cotidiano de abotoar se converte em sinopse de estados emocionais.
Além das telas, a artista expande sua linguagem ao realizar acessórios: brincos e braceletes feitos de botões. Esses objetos assumem nova existência — “botões livres” que perdem sua função original para se tornarem joias e amuletos estéticos. A afirmação de Martinelli — que nem tudo precisa ter utilidade para existir — é uma provocação sutil ao utilitarismo contemporâneo e ao valor atribuído aos resíduos da memória doméstica.
Como observadora do Zeitgeist, vejo nesta série um reframe da realidade: o botão passa do anônimo ao simbólico, e esse deslocamento funciona como um pequeno relato sobre identidade, memória e intimidade. Em suas superfícies, a artista compõe uma semiótica do viral cotidiano, mostrando que o que descartamos carrega narrativas, e que transformar um fragmento em arte é, antes de tudo, um gesto de ressignificação cultural.
Na passagem do objeto à obra, Noemi Martinelli nos convida a olhar para os detalhes que habitam nossas roupas e gavetas como possíveis pistas de compreensão — pequenos sinais que, colocados no centro do quadro, reconstroem uma história maior sobre quem somos e como nos protegemos/mostramos ao mundo.