Da política digital ao riso investigativo: as novas leituras de Riotta e Malvaldi nas livrarias
Novidades nas livrarias: o thriller geopolítico de Gianni Riotta e os contos cômicos-investigativos de Marco Malvaldi. Política, humor e desinformação.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Da política digital ao riso investigativo: as novas leituras de Riotta e Malvaldi nas livrarias
Esta semana, a vitrine das livrarias ganha contornos que conversam diretamente com o espírito do nosso tempo: de um thriller geopolítico que mapeia a era da desinformação à delicadeza cômica de contos que celebram a antropologia do quotidiano. Como um espelho do nosso tempo, essas obras não são apenas entretenimento — são lentes para entender o roteiro oculto da sociedade.
Nas prateleiras pela Mondadori chega o thriller do jornalista e escritor Gianni Riotta, Generose anime di eroi. Em linguagem de grande fôlego épico, Riotta constrói uma trama em que o chamado Partito della Guerra opera nas sombras do Kremlin, numa fábula moderna sobre caos informacional e poder. A narrativa entrelaça operações clandestinas, vídeos falsos produzidos por hackers e uma gangue de ex-combatentes da guerra ao terrorismo aparentemente desaparecidos.
Em Nova York, os protagonistas — o inspetor Joey Dallera e o detetive Steve Ernst, veteranos de Falluja — se deparam com um corpo gigantesco diante de um clube de topless em Brooklyn. O detalhe que acende a investigação é um tatuagem no antebraço com um nome em latim, que aponta para uma linhagem misteriosa. A partir daí, a busca dos policiais, muitas vezes conturbada pela resistência do FBI e dos serviços de inteligência dos EUA, descortina uma série de cadáveres abandonados ao redor de embaixadas, de Nova York a Madrid, numa saga viral de horror e manipulação.
O fio que puxa o enigma leva até os subterrâneos do Vaticano e à trilha de uma facção apelidada de "Gladiadores". Enquanto isso, na Casa Branca, a primeira presidente mulher dos Estados Unidos enfrenta o pior pesadelo político e pessoal: o sequestro de sua filha adolescente, exploração usada pelos Gladiadores como instrumento de chantagem. Entre os vários personagens que orbitam o romance, surgem a espiã romântica Meredith De Lattre, em trânsito entre Moscou e as trincheiras da Ucrânia, e Jim Hawkins, criador de Code, um sistema de AI que prevê eventos futuros. Em jogo, a sobrevivência do mundo numa era dominada pela desinformação que mata.
Riotta, com a experiência de longa data como correspondente em EUA, Oriente Médio, Rússia, América Latina e Europa, transforma sua vivência jornalística em narrativa romanesca — um reframing literário que mistura política, conflito e afetos do nosso tempo com uma musicalidade que é ao mesmo tempo divertida e comovente.
Do outro lado da prateleira, com lançamento pela Sellerio a partir de 17 de março, chega L’uomo vestito di arancione. Sei casi al BarLume, do querido Marco Malvaldi. Em Pineta, a vila costeira da imaginação de Malvaldi, os Vecchietti del BarLume consolidam-se como instituição cultural: veteranos de sagacidade, cuja argúcia se manifesta entre piadas corrosivas, tiradas afiadas e uma perspicácia investigativa inusitada.
O livro reúne contos que percorrem quatro anos de pequenas investigações, onde o humor encontra a estrutura do gênero policial. Nos relatos, predominam diálogos vivos, cenas encenadas com economia e o retrato afiado de uma comunidade que é ao mesmo tempo microcosmo e metáfora social. É a semiótica do viral transposta ao idílio de uma praia: o riso como arma e espelho, a rotina que esconde mistérios, a antropologia afetiva de personagens que resistem ao apagamento do tempo.
Essas duas propostas — o thriller geopolítico de Riotta e os contos de Malvaldi — formam um diálogo frutífero entre escala global e intimidade local. Leiam-se como textos que nos convidam a refletir: a grande narrativa do mundo e o roteiro minucioso das vidas comuns são capítulos do mesmo livro histórico. E, como qualquer bom filme, é na montagem entre cenas que se revela o sentido mais profundo.


