O que aconteceu com nossas cidades? A patologia urbana que as transformou

Reflexão sobre a transformação das cidades: estética redundante, falta de projeto e a perda da memória urbana. Uma análise cultural crítica.

O que aconteceu com nossas cidades? A patologia urbana que as transformou

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O que aconteceu com nossas cidades? A patologia urbana que as transformou

Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Por Chiara Lombardi — Espresso Italia

“Sorge nell'alta campagna un colle, sopra il quale sta la maggior parte della città; ma arrivano i suoi giri molto spazio fuor delle radici del monte […] dentro vi sono tutte l'arti, e l'inventori loro, e li diversi modi, come s'usano in diverse regioni del mondo.” (Tommaso Campanella, La città del Sole, 1602)

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O ponto de partida é esse espelho do passado: Campanella imaginou uma cidade como um palco onde as artes e invenções se encenam com lógica e desenho. Hoje, porém, a pergunta ecoa com outro peso: o que aconteceu com nossas cidades? Que espécie de patologia — viral, cultural ou simbólica — as reduziu a esse pouco e, ainda assim, demais, que encontramos ao atravessá‑las?

Tudo e nada, diríamos com ambivalência clínica. Persistimos em nos chamar de “cidadãos”, talvez com a esperança de pertencer a um roteiro coletivo previsível. Em vez disso, vivemos uma deriva dicotômica: zonas de maravilha que parecem carecer de projeto e princípios; éticas públicas minadas por uma estética redundante que se multiplica sem razão.

A cidade contemporânea — ao menos nos últimos duzentos anos — respira com dificuldade, sofre de uma espécie de hipóxia urbana frente aos desenhos coloridos dos mestres que sabiam planejar o espaço público. Encontramos, no lugar de um plano coerente, um amontoado de formas de alta densidade formal: superfícies muito fotografáveis, vazios de conteúdo. O que vemos são fachadas muitas vezes bem acabadas que, por trás, guardam um vazio projetual.

A teoria e o traço ficaram feridos; a escrita e o esboço perderam terreno para a prova estereométrica polida. As arquiteturas se empilham como adereços que tentam cosmopolitizar até as províncias mais distantes do império. Urbanistas que não exercitam a memória coletiva e que desconhecem a própria história produzem cenários que parecem saídos do roteiro improvisado de uma ficção científica atolada no ornamento.

À cidade falta ar. Ela se conforma às pequenas fábulas do guru de plantão, que promete sentido com slogans superficiais. Há poucas ideias, e as que existem se repetem como numa partida do jogo da vida reduzida ao tabuleiro da homogeneização antropológica.

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“Viene giù lento questo cielo d'acqua
Senza respiro
Come se non fosse niente
Sopra il traffico e le luci
Che galleggiano lungo la strada
Senza respiro…”

(música: V. Nocenzi, G. Nocenzi / letra: F. Di Giacomo, V. Nocenzi, 1979)

Como se a própria história inscrita nos muros se dissolvesse, nossa paisagem coletiva perde espessura. Há uma semiótica do viral aqui: símbolos e imagens que circulam acelerados, mas empobrecem o repertório simbólico. O que percebemos caminhando por esses cenários é a erosão do sentido; um reframe da realidade que mascara a ausência de projeto como pluralidade.

Procuro, como analista cultural, entender o porquê desse abismo contemporâneo. Não é apenas estética: é valor, memória, memória curta. A cidade que não pratica a recordação perde os sinais para narrar seu próprio futuro. É um cinema urbano sem roteiro que confia exclusivamente no enquadramento hipnótico da imagem.

Portanto, quando nos perguntamos o que aconteceu com nossas cidades, não buscamos apenas um diagnóstico técnico. Pedimos uma retomada do desenho — um gesto coletivamente pensado que resgate a respiração urbana. Se a cidade volta a inspirar, talvez recupere também a capacidade de nos refletir como comunidade com rosto e memória, e não apenas como vitrine iluminada na noite.

Chiara Lombardi é editora cultural da Espresso Italia. Observadora do zeitgeist, escreve sobre cinema, memória e as narrativas que moldam nossas cidades.

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