Paolo Kessisoglu estreia monólogo sobre a relação entre pais e filhos: um convite a perguntas, não a respostas

Paolo Kessisoglu estreia 'Sfidati di me', monólogo sobre pais e filhos que provoca perguntas sobre adolescência, tecnologia e cuidado.

Paolo Kessisoglu estreia monólogo sobre a relação entre pais e filhos: um convite a perguntas, não a respostas

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Paolo Kessisoglu estreia monólogo sobre a relação entre pais e filhos: um convite a perguntas, não a respostas

Por Chiara Lombardi — Em cena com a elegância de quem observa o presente como se fosse um roteiro em andamento, Paolo Kessisoglu volta a colocar no palco o espelho do nosso tempo com Sfidati di me, um monólogo que nasce da tensão íntima entre pais e filhos e da urgência de olhar para os sinais de sofrimento juvenil.

O ator, que já tem mais de duas décadas de vida adulta atravessando a experiência de ser pai, assina o texto ao lado de Giorgio Terruzzi, com direção de Gioele Dix. A peça se desenrola em uma sala de espera de pronto-socorro — cenário híbrido entre realismo social e dispositivo simbólico — onde um diálogo imaginário expõe incompreensões, irritações e um amor que não se traduz em fórmulas prontas.

“A pandemia colocou em crise a geração da minha filha”, diz Kessisoglu, e é justamente dessa fratura coletiva que nasce a inquietação do espetáculo. Ao invés de oferecer respostas, Sfidati di me pretende ser um estímulo para que pais e cuidadores se coloquem perguntas difíceis. Esse é o efeito que o teatro deve buscar: provocar reflexão, cortar a superfície e deixar em cena a complexidade das relações.

O artista fala com cuidado sobre os laços contemporâneos: hoje, com a tecnologia, pensamos estar mais conectados, mas muitas vezes estamos mais distantes. Os adolescentes podem estar fisicamente ao lado, com um telefone na mão, enquanto a vida emocional acontece em um outro ângulo da casa — e nós, adultos, ficamos fora da cena. É uma daquelas ironias que a cultura contemporânea adora nos oferecer como clímax: proximidade digital, distância afetiva.

Ao revisitar a própria juventude, Kessisoglu conta episódios que misturam humor e culpa: um adolescente vivaz, notas ruins, e a confissão de ter usado o carro do pai para dar voltas no quarteirão — até perder o fio do lugar onde o pai havia estacionado. Essas anedotas têm a função de humanizar a narrativa e lembrar que a passagem de filho a pai é também um reframe de memórias e responsabilidades.

Na vida off-stage, a preocupação com o bem-estar dos jovens levou o ator, ao lado da companheira Silvia Rocchi, a fundar a associação sem fins lucrativos C’è Da Fare. A iniciativa parte de uma constatação estatística e humana: o aumento de procura por serviços de saúde mental entre adolescentes não é apenas um dado, é um sintoma dessa época.

Sobre erros de paternidade, Kessisoglu é claro e direto: houve muitos — e um dos mais recorrentes é a superficialidade, a tentação de minimizar um sinal de alerta com um “não vou incomodar”. O aviso é prático e moral ao mesmo tempo: é preciso falar, tentar escutar e não delegar ao tempo ou ao silêncio a responsabilidade pelo cuidado.

O desfecho do monólogo, que ele admite ter um tom propositalmente provocador, cumpre o papel que o teatro deve ter: instigar um ponto de reflexão. Não é um sermão, nem um manual; é um convite teatral para encarar a complexidade. Em tempos em que o palco se transforma em lente social, Paolo Kessisoglu entrega uma peça que funciona como um pequeno farol — não para apontar o caminho, mas para iluminar dúvidas que todos carregamos.

Em seu trabalho, o ator traça um paralelo entre memória afetiva e responsabilidade presente: o espetáculo não resolve, mas reabre diálogos. É um lembrete de que, como no bom cinema, o que faz o coração bater não é apenas a resolução do enredo, mas a força das perguntas que permanecem depois do encerramento da sessão.