Da Pérsia de Ciro ao Primeiro Xá Pahlavi: história, zoroastrismo e a contenda pelo petróleo

Da Pérsia de Ciro ao Xá Pahlavi: zoroastrismo, dinastia Qajar e a disputa pelo petróleo que reescreveu o Irã moderno.

Da Pérsia de Ciro ao Primeiro Xá Pahlavi: história, zoroastrismo e a contenda pelo petróleo

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Da Pérsia de Ciro ao Primeiro Xá Pahlavi: história, zoroastrismo e a contenda pelo petróleo

Sou Chiara Lombardi, e convido você a olhar para a história do Irã como se folheássemos um roteiro antigo: camadas que se revelam como cenas sobrepostas, onde religião, identidade e interesses estratégicos formam o verdadeiro enredo por trás da geopolítica do petróleo.

A jornada começa com Ciro, o Grande, fundador do Império Aquemênida, figura que entrou no imaginário não apenas como conquistador, mas como um arquiteto de políticas de tolerância e administração. É célebre que as comunidades judaicas da Antiguidade veriam em Ciro um libertador — até a ponto de chamá‑lo, em textos bíblicos, de libertador ou figura messiânica. Essa ponte cultural evidencia que a antiga Pérsia foi também um berço de trocas religiosas e filosóficas.

O papel do zoroastrismo — a antiga religião iraniana — na configuração das imagéticas do Oriente Médio posterior não pode ser subestimado. Estudos acadêmicos, entre eles os de Petazzoni e outros historiadores das religiões, traçam influências do pensamento iraniano em correntes proféticas e escatológicas do mundo judaico pós‑exílico. Não é exagero dizer que, neste espelho cultural, surgem temas centrais como a batalha cósmica entre o bem e o mal — uma narrativa que ressoa em textos, rituais e mentalidades.

Ao longo dos séculos, a Pérsia tornou‑se palco de sucessivas dinastias e de pressões externas. A dinastia Qajar (final do século XVIII até as décadas iniciais do XX) governou um país sob crescente influência britânica e russa. O descobrimento de petróleo no início do século XX, com poços explorados em áreas como Masjed Soleyman, transformou a geopolítica iraniana: o subsolo, antes apenas promessa de riqueza, tornou‑se campo de uma verdadeira guerra secreta por concessões, concessões essas que moldariam relações e decisões internas.

A política do final da era Qajar e a transição para a dinastia Pahlavi marcam o próximo ato. Após o golpe de 1921 e a ascensão de Reza Khan, consolidou‑se a figura do primeiro Reza Shah Pahlavi, que promoveu uma modernização autoritária e tentou reorientar a soberania iraniana frente às potências que disputavam seu petróleo. A trama, entretanto, continuou a ser escrita por interesses externos: empresas e governos europeus vinham reconstruindo o roteiro do país como palco de extração e controle.

Num plano cultural, pensadores europeus e observadores — de Kaiser Guilherme II a estudiosos como Carl Gustav Jung — analisaram os cultos solares, o mithraismo e a matriz simbólica iraniana. Algumas leituras foram polémicas e, vezes, reducionistas; ainda assim, ajudam a entender como a imagem da Pérsia foi projetada no imaginário ocidental: ora como berço de espiritualidade arcaica, ora como cena estratégica do combustível do século XX.

Se o petróleo escreveu as linhas mais recentes deste roteiro, o que permanece como verdade mais profunda é o peso das raízes culturais. Um povo com uma memória longa não reage apenas por cálculo pragmático: reage como quem lê um roteiro ancestral e decide qual cena quer interpretar. Nesse sentido, a história do Irã/Pérsia — de Ciro aos Qajares e ao primeiro Xá Pahlavi — é também a história de um espelho: refletimos nele as nossas certezas, os nossos medos e a complexa relação entre poder, identidade e recursos.

Ao desdobrar este capítulo da série sobre a guerra secreta pelo petróleo, convido o leitor a escutar tanto os fatos documentados — tratados, concessões, golpes e descobertas petrolíferas — quanto as camadas simbólicas que explicam por que, para a Pérsia, cada recurso natural tem sempre um roteiro humano a acompanhá‑lo.