Pionati acusa Nolan de trair Homero: 'Odisseia' é longo espetáculo vazío, diz jornalista
Crítica de Francesco Pionati aponta que Nolan "traiu Homero"; filme é chamado de longo e insulso apesar do sucesso comercial.
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Pionati acusa Nolan de trair Homero: 'Odisseia' é longo espetáculo vazío, diz jornalista
Francesco Pionati, jornalista e ex-diretor do Gr Rai, não poupou críticas ao novo filme de Christopher Nolan, Odisseia, em postagem nas redes sociais. Para Pionati, a adaptação cinematográfica teria injustificado o corte de capítulos centrais do poema homérico, transformando uma obra sobre travessias interiores em um produto de entretenimento raso.
Na avaliação do crítico, a projeção deveria trazer um aviso para quem conhece e ama a Odisseia: evitar a sala ou encarar o filme apenas como um «labile e distante ponto de partida». Pionati vai direto: "Nolan traiu Homero". Segundo ele, a supressão de episódios decisivos — como o encontro com Nausicaa e as emocionantes confissões na corte dos Feaces — revela que o diretor ou não leu o poema com atenção ou o fez numa versão simplificada.
O jornalista descreve cenas que, em sua leitura, denunciam a perda de transcendência do original. Ele relata que a cena em que os gregos, comandados por Ulisses, saem do ventre do cavalo para abrir as portas de Troia culmina num momento inesperado: a imagem de Batman diante das portas da cidade. "Por um instante pensei ter entrado na sala errada", ironiza Pionati, que também nota a ausência de Agamemnon — "evaporado", nas suas palavras. Essa mistura de referências, para ele, transforma o épico em um "fumettone" (quadrinho exagerado) e dilui o caráter sagrado e ancestral da narrativa.
Da crítica surge um diagnóstico cultural. Pionati atribui o problema a uma visão anglo-americana que teria dificuldade em captar "o sentido da transcendência, do divino e do vínculo com um passado remoto". No filme, segundo ele, Ulisses vira um super-herói, os homens se tornam marionetes e os deuses, manipuladores caprichosos. É uma leitura que confronta o cinema blockbuster com o «roteiro oculto» da tradição: o clássico como ferramenta para explorar as profundezas da alma humana, e não apenas uma sequência de sequências espetaculares.
O jornalista também coloca em cena referências históricas e audiovisuais: Nolan, diz Pionati, deveria ter revisto a memorável série da Rai de há sessenta anos, ouvir a introdução inspirada de Ungaretti e comparar a expressão de Bekim Fehmiu com o tom que ele considera monocromático de Matt Damon. Pionati sugere ainda que o diretor poderia ter buscado experiência sensorial em locais como Paestum, Velia ou o Cilento, para sentir o silêncio, o peso da paisagem e o clima que moldou o poema — um convite para se reconectar ao passado que alimenta o presente.
Apesar de reconhecer o sucesso comercial — citado o investimento de cerca de 250 milhões e uma arrecadação que ultrapassou a casa do bilhão —, Pionati define o filme como um "fracasso de sucesso": longo, insosso e flutuante na superfície do mar sem jamais mergulhar nas suas profundezas. É uma crítica que assume um tom de lamento cultural: a grande produção que segue os critérios do show business estadunidense, mas perde o horizonte simbólico que torna um épico realmente duradouro.
Como observadora do zeitgeist, resta perguntar: o que esse embate entre tradição e espetáculo nos diz sobre nossa época? Se a adaptação de Nolan reflete tendências maiores — a tendência a converter mitos em franquias, a priorizar clareza narrativa instantânea sobre ambiguidade poética — então a polêmica de Pionati funciona como um espelho do nosso tempo. O debate não é apenas sobre fidelidade textual, mas sobre o papel do cinema contemporâneo como espaço de memória coletiva ou como fábrica de entretenimento global. E nesse cenário de transformação, o que pesa mais: o eco cultural do passado ou o aplauso imediato da bilheteria?