Piotta transforma o luto em kintsugi sonoro em 'Si riparano i ricordi'

Piotta transforma o luto em kintsugi sonoro com 'Si riparano i ricordi': memórias, colaborações e crítica ao appiattimento creativo.

Piotta transforma o luto em kintsugi sonoro em 'Si riparano i ricordi'

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Piotta transforma o luto em kintsugi sonoro em 'Si riparano i ricordi'

Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece assinar a fotografia de uma época, Piotta entrega ao público seu novo álbum Si riparano i ricordi, lançado pela Ada/Warner Music. A obra nasce como continuidade íntima do disco anterior, no qual já havia sido tratado o luto pela perda do irmão Fabio. Aqui, porém, a dor encontra um ofício: mais reparação simbólica que catarse puramente dolorosa.

O artista, conhecido por sua trajetória entre o rap e a canção de autor, descreve o processo criativo como um transbordamento interno — “é como se fosse esondato um fiume che avevo dentro” — e transforma memórias privadas em material coletivo. O ouro que sela as fissuras do álbum é literal e metafórico: trechos de áudio, anotações manuscritas e arquivos do próprio Fabio viraram matéria-prima para montar um mosaico que conserva as cicatrizes, sem fingir uma restauração total.

Se o termo kintsugi evoca a estética japonesa de reparar com ouro os objetos quebrados, o disco de Piotta propõe uma kintsugi emocional: não apagar o trauma, mas convivê-lo com elegância. Essa escolha confere ao trabalho uma dimensão quase arqueológica, onde lembranças emergem como camadas de um relicário pop — uma “arqueologia da cultura popular”, nas palavras do próprio artista.

Aos 52 anos, Piotta se assume hoje mais um cantautor que usa o rap do que um rappeur estritamente tradicional, dissolvendo fronteiras genéricas que por vezes a indústria insiste em cristalizar. O álbum abraça colaborações que remetem à gênese do gênero: em 'In quante notti ancora' ele volta a encontrar Tormento e Frankie hi-nrg mc, numa homenagem à liberdade criativa dos primeiros anos, quando não havia regras nem um mercado ditando caminhos.

Essa liberdade, afirma Piotta, é hoje comprimida pelo mercado. Onde há negócio, diz ele, a liberdade tende a se restringir e observa um evidente appiattimento creativo: jovens artistas enfrentam ansiedade de performance já na adolescência, um fenômeno que desloca a música do seu papel de laboratório existencial e a transfere para o palco do espetáculo constante.

O álbum também convoca presenças do passado — Ciampi, Remotti, Pasolini — não como simples citações, mas como vozes vivas que atravessam as faixas. Há, na escolha dessas referências, um interesse em reconstituir memórias coletivas e familiares: Piotta recorda a origem friulana compartilhada com Pasolini, a chegada a Roma como um espelho das esperanças e do desalento dos avós migrantes.

O tema 'Me ne andavo da quella Roma', idealizado por Federica Remotti, reúne um coro improvável e afetuoso — Carlo Verdone, Valerio Mastandrea, Mannarino, Daniele Silvestri, Barbarossa, Emanuela Fanelli, Ditonellapiaga, Carl Brave — todos elementos que transformam o monólogo em memória partilhada. É uma montagem coral que reafirma o sentido de comunidade que a cultura pode produzir diante da perda.

Mais do que um álbum sobre saudade, Si riparano i ricordi é um exercício de inteligência afetiva: um convite a perceber a música como espelho do nosso tempo, como um roteiro oculto que mapeia lutos pessoais e coletivos. Piotta não busca o conforto da negação, prefere o trabalho delicado de costurar com ouro as fendas que nos definem — e, ao fazê-lo, propõe um reframe da realidade onde memória e criação se tornam medicina e documento.