Premio Terzani 2026: Alaa Faraj vence com 'Perché ero ragazzo' e reabre debate sobre justiça e memória
Alaa Faraj vence o Premio Terzani 2026 com 'Perché ero ragazzo', carta-prisão que reabre debate sobre migração, justiça e memória.
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Premio Terzani 2026: Alaa Faraj vence com 'Perché ero ragazzo' e reabre debate sobre justiça e memória
Por Chiara Lombardi — Em uma edição que funciona como um espelho do nosso tempo, o Premio Terzani 2026 foi concedido a Alaa Faraj pelo livro-testemunho Perché ero ragazzo, publicado pela editora Sellerio. Anunciado pela presidente da júri, Angela Terzani Staude — esposa do escritor e jornalista Tiziano Terzani — o reconhecimento na XXII edição do prêmio destaca «uma história exemplar de dignidade e coragem», nas palavras oficiais da comissão.
As páginas do livro reúnem cartas escritas na prisão por um jovem nascido em Bengasi em 1995. Em agosto de 2015, aos vinte anos, Alaa era estudante de engenharia e promessa do futebol. A guerra civil havia interrompido a universidade e os campeonatos; sem visto para a Europa, ele embarcou rumo ao velho continente em um barco de migrantes, ao lado de amigos. Durante a travessia, 49 pessoas morreram asfixiadas no porão. Após uma investigação rápida, Alaa foi acusado de «concorso in omicidio plurimo e violazione delle norme sull’immigrazione» e condenado a 30 anos de prisão.
Mas a narrativa que emerge em Perché ero ragazzo é outra: a do homem que recusou o papel do criminoso e insistiu em sua inocência. Na prisão, o encontro com a professora de Filosofia do Direito Alessandra Sciurba transformou-o lentamente em escritor. Ele aprendeu italiano entre as celas e escreveu à mão, em letras de forma, os relatos que hoje compõem o livro — um exercício de memória que ressignifica o sofrimento coletivo e dá voz às vítimas que não tiveram justiça, como o próprio autor reafirma.
Em dezembro de 2025, o presidente da República, Sergio Mattarella, concedeu a Alaa uma grazia parziale, reduzindo a pena em onze anos e quatro meses. Atualmente, corre uma nova revisão do processo, e o tema permanece um convite à reflexão sobre sistema penal, migração e responsabilidade institucional.
A júri do Premio Terzani 2026 contou com as presenças de Angela Terzani (presidente), Saskia Terzani, Enza Campino, Toni Capuozzo, Marco Del Corona, Andrea Filippi, Milena Gabanelli, Nicola Gasbarro, Carla Nicolini, Marco Pacini, Paolo Pecile, Remo Andrea Politeo, Marino Sinibaldi e Mario Soldaini. A cerimônia de premiação acontecerá no sábado, 9 de maio, no Teatro Nuovo Giovanni da Udine (21h). Angela Terzani lerá a motivação da júri e entregará o prêmio a Alaa Faraj, cuja participação depende de autorização das autoridades competentes. A noite, conduzida pelo jornalista e crítico literário Marino Sinibaldi, incluirá leituras e intervenções que vão situar o livro no panorama cultural contemporâneo.
Mais do que um caso judicial, a trajetória de Alaa funciona como um roteiro oculto da sociedade: a migração como drama humano, a escrita como ato de resistência e a justiça como processo ainda em construção. Perché ero ragazzo não é somente a memória de um jovem de Bengasi; é a semiótica de um tempo em que fronteiras políticas e morais se sobrepõem, exigindo que a literatura cumpra seu papel de testemunha e espelho social.
Para o leitor europeu e global, o livro e o prêmio abrem uma pergunta inquietante — por que certos rostos da tragédia encontram voz tardia, e o que isso revela sobre nossa responsabilidade coletiva? É essa pergunta, mais do que a homenagem, que torna o reconhecimento de Alaa um acontecimento culturalmente relevante, digno de ser discutido em cafés, salas de leitura e espaços públicos onde se decide o sentido da memória.