Renzo Arbore emociona-se ao lembrar Gino Paoli: “Minha preferida é 'Senza fine' — seu testamento, 'Ti lascio una canzone'”

Renzo Arbore lembra Gino Paoli: a amizade, 'Senza fine' como favorita e 'Ti lascio una canzone' como seu testamento espiritual.

Renzo Arbore emociona-se ao lembrar Gino Paoli: “Minha preferida é 'Senza fine' — seu testamento, 'Ti lascio una canzone'”

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Renzo Arbore emociona-se ao lembrar Gino Paoli: “Minha preferida é 'Senza fine' — seu testamento, 'Ti lascio una canzone'”

Por Chiara Lombardi — Em um tom que mistura reverência e melancolia, Renzo Arbore fala sobre a perda de Gino Paoli, descrito por ele como uma verdadeira coluna da música italiana. Ao telefone, Arbore confessa estar «consternado». Sua canção favorita de Paoli? «Senza fine». Para o apresentador e músico, a morte de Paoli não é apenas a partida de um intérprete: é a perda de um autor que elevou a canção ao patamar da grande tradição italiana, quase acadêmica.

Arbore sublinha que as composições de Paoli ultrapassam o rótulo de música leve — são «obras importantes», «capolavori assoluti» que resistem às modas e permanecem sempre verdes. Ele lembra também como o mundo do jazz sempre reconheceu a nobreza desses temas, adaptando-os e levando-os a palcos internacionais: verdadeiros evergreens.

O primeiro encontro entre os dois remete aos anos 60. Arbore relata que ouviu «Il cielo in una stanza» na voz de Mina em um estabelecimento em Ischia e ficou impressionado: a canção, na sua percepção, «laureou Mina como grande vocalist». Comprou então o primeiro álbum de Paoli, descrevendo-o como uma revelação repleta de obras-primas.

Da admiração à amizade o passo foi curto. Arbore recorda que convidou Paoli para programas emblemáticos como «L'altra domenica» e «Speciale per voi» (Milão, 1969), onde o cantautor falou da sua história com Ornella Vanoni e apontou o jovem Claudio Baglioni como um nome a acompanhar. Em um desses momentos, Arbore afirmou sem rodeios que «Senza fine» estava entre as dez canções mais belas do mundo.

As lembranças pessoais são à altura das profissionais. Arbore recorda uma festa inesquecível para os 80 anos de Paoli, realizada em sua casa, com amigos de longa data como Caterina Caselli e Beppe Grillo — um retrato que lembra um set de filmagem onde todos os figurantes são da vida real. Há também a memória leve de Ischia: para fazê-lo rir, Arbore trocava o maiô a cada meia hora, deixando Paoli «in brodo di giuggiole».

Sobre os últimos anos, Arbore admite não ter tido muito contato: «não o escutava mais, há quase um ano; nem respondia ao telefone — nem mesmo o seu manager». Cerca de uma década atrás, porém, eles voltaram a trabalhar quando Paoli foi convidado para «L'altra, la tv d'autore di Renzo Arbore», gravado na casa do apresentador. Lá, revisitaram juntos as primeiras imagens em preto e branco de 1969, com Paoli e Ornella Vanoni.

Arbore enquadra Paoli na geração pioneira dos cantautores italianos — a frota que partiu com nomes como Umberto Bindi, seguido por Luigi Tenco e Bruno Lauzi. Foi essa safra, segundo Arbore, que compreendeu antes de muitos que as letras podiam ser poesia — um gesto fundador que chegaria a influenciar até mesmo artistas como Battisti.

Por fim, Arbore resume o legado de Paoli numa imagem bastante íntima: se a sua música já é um espelho do nosso tempo, seu gesto final — «Ti lascio una canzone» — soa como um testamento espiritual, uma partitura deixada para que as palavras continuem a ecoar e a reconfigurar memórias. Como em um filme, restam as cenas que tocavam mais fundo: as pequenas alegrias, as amizades longas e as canções que permanecem sem fim.