Sotheby's leva à praça a Collezione Lewis: Modigliani avaliado em £45M e a única escultura exibida em vida por Degas por £18M

Sotheby's apresenta a Collezione Lewis: Modigliani estimado em £45M e a única escultura exibida por Degas por £18M em leilão histórico em Londres.

Sotheby's leva à praça a Collezione Lewis: Modigliani avaliado em £45M e a única escultura exibida em vida por Degas por £18M

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Sotheby's leva à praça a Collezione Lewis: Modigliani avaliado em £45M e a única escultura exibida em vida por Degas por £18M

Por Chiara Lombardi — Quando o mercado e a história da arte se encontram, o resultado é um espelho do nosso tempo: reflexos de controvérsia, desejo e reavaliação. Sotheby's anunciou a publicação integral do catálogo da histórica venda da Collezione Lewis, revelando um conjunto que reúne alguns dos nomes mais decisivos do século XX e que agora volta a nos interrogar sobre valor, escândalo e memória.

No centro deste leilão figura um nu sensorial de Amedeo Modigliani, Nu assis au collier (1917), com estimativa superior a £45 milhões. Pertencente à série que abalou a moral de sua época — uma mostra chegou a ser fechada pela polícia —, este quadro é reconhecido entre os exemplos mais importantes do artista a surgir no mercado. Modigliani já ultrapassou a barreira dos 100 milhões de dólares em leilão, não uma, mas duas vezes, ambas em Nova Iorque. Agora, o roteiro muda: Londres recebe a peça que pode se tornar a oferta mais valiosa do artista em solo europeu.

Ao lado desse ícone, Sotheby's apresenta também a única escultura que Edgar Degas expôs em vida — uma peça singular estimada em cerca de £18 milhões. A presença desta escultura no catálogo funciona como um contraponto fascinante: enquanto Modigliani redesenhava a tradição do nu, Degas mantinha um olhar clínico sobre o corpo em movimento, registrando a tensão entre observador e observado.

O leilão não para por aí. A Collezione Lewis é um mosaico de trajetórias — aparecem nomes como Gustav Klimt, Egon Schiele, Gustave Caillebotte, Lucian Freud, Francis Bacon e Chaïm Soutine. Entre essas obras figura também uma peça-chave de Lucian Freud, Sleeping by the Lion Carpet, avaliada entre £25–35 milhões, considerada por críticos como Sebastian Smee uma das representações da figura humana mais intensas e inéditas da história recente.

O conjunto da coleção funciona menos como um gabinete de curiosidades e mais como um roteiro oculto da sociedade: cada pintura e escultura foi, em sua época, um choque, um reframe da realidade que recodificou o que entendemos por beleza, intimidade e privacidade. Os Lewis demonstraram um instinto curatorial que privilegiou não apenas a qualidade plástica, mas a capacidade das obras de ressoar — de provocar ondas no tecido social.

Trata-se, portanto, de uma venda que vai além do mercado. É um encontro entre histórias pessoais, revoltas estéticas e o sistema global dos leilões. Ao deslocar-se de Nova Iorque para Londres um dos mais importantes trabalhos de Modigliani, o mercado europeu vê-se desafiado a reassumir seu papel numa narrativa que sempre oscilou entre escândalo e canonização.

Em termos simbólicos, poderíamos pensar neste catálogo como um filme em capítulos: cada tela é um close que revela a face mutante de uma época; cada escultura, um movimento congelado que insiste em nos lembrar da corporeidade histórica. Mais do que preços, são histórias — e é esse eco cultural que torna a Collezione Lewis tão relevante para quem observa a arte como documento e espelho do nosso tempo.

O leilão da Collezione Lewis promete, assim, não apenas cifras memoráveis, mas um novo diálogo público sobre o que preservamos, reprovamos e celebramos no roteiro contínuo da arte moderna.