Taiwan e China na Bienal de Veneza: como a arte revela carismas, identidades e contradições

Comparativo entre as instalações de Taiwan e China na Bienal de Veneza: arte, identidade e contradições expostas entre Palazzo delle Prigioni e Arsenale.

Taiwan e China na Bienal de Veneza: como a arte revela carismas, identidades e contradições

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Taiwan e China na Bienal de Veneza: como a arte revela carismas, identidades e contradições

Por Chiara Lombardi — Em Veneza, a arte funciona como um espelho do nosso tempo: às vezes nitidamente reflexiva, outras vezes distorcida para revelar o roteiro oculto das nações. No coração desse diálogo está a instalação Screen Melancholy, de Li Yi Fan, que representa Taiwan na Bienal de Veneza e que pode ser vista no fascinante Palazzo delle Prigioni, contíguo ao Palazzo Ducale, no lado da Riva degli Schiavoni.

A peça é simultaneamente vídeo e escultura: um vídeo gigantesco reproduz a mesma sala onde a obra está instalada, enquanto esculturas monumentais — mãos gigantes e uma cabeça do mesmo personagem que domina a projeção imersiva — ocupam o espaço físico. O protagonista é uma figura andrógina, quase alienígena, expressiva e teatral: um avatar que remete à excessiva performatividade de Carmelo Bene, mas sem cair nos lugares-comuns do moralismo ou da retórica fácil. Essa criatura funciona como um catalisador intelectual, uma máscara fluida que expõe camadas de sentido enquanto encanta pelo excesso barroco de sua presença.

Os temas de Li Yi Fan são contemporâneos e densos: mídias e identidades, a composição técnico-química das cores, a cartografia dos territórios comunicativos e a circulação fractal dos fluxos de compartilhamento digital — elementos que convergem num espetáculo processual e sinestésico. Ao contrário de muitas obras contemporâneas em que o discurso vira mera propaganda ou uma superestrutura explicativa que esvazia a força estética, aqui a oratória torna-se estética por direito. A obra opera como uma matrioska de revelações, abrindo camadas que são, ao mesmo tempo, teatro e reflexão crítica sobre a semiótica do viral.

Esse contraste fica mais claro ao visitar o grande pavilhão da China, instalado no Arsenale. A experiência ali é, infelizmente, decepcionante. Além do primeiro encontro pouco cortês — uma jovem distraída ao computador na entrada, que nem sequer olha quem chega — o conjunto curatorial parece um cocktail mal dosado: gravuras em estilo antigo, uma estátua de um guerreiro-macaco, um holograma vertical, um vídeo de animação com estética americana e um robô que pinta ideogramas. O resultado é superficial, descritivo e literal demais para se afirmar como obra de arte contemporânea.

Essa dissonância aponta para uma questão mais ampla: a exposição chinesa evidencia uma rigidez estilística e uma dificuldade de reelaboração dos modelos assimilados — menos uma falha individual de artistas e mais um sintoma cultural. Em vez de oferecer um reframe crítico, o pavilhão se aproxima do turístico, deixando escapar o que poderia ser uma narrativa mais complexa e arriscada.

Não obstante, é importante sublinhar que não faltam talentos na cena chinesa: trabalhos singulares podem ser encontrados em espaços menores, como o oratório da antiga igreja de Santa Maria della Pietà (Riva degli Schiavoni), onde artistas conseguem traduzir tensões contemporâneas com verve e nuance. A Bienal, assim, expõe dois modos de contar a nação — um que se meta-teatraliza e reconstrói identidades, e outro que reproduz modelos, sem o risco do espelhamento crítico.

Como espectadoras e espectadores, resta-nos escanear esses sinais: a arte que nos fala com rizomas e fraturas e a arte que insiste em permanecer imagem turística. Entre as duas, encontra-se o verdadeiro valor da exposição — não apenas como vitrine, mas como documento do tempo, do jogo de influências e do eco cultural que atravessa Europa e Ásia.