Tenuta Val Casotto, o retiro de caça de Vittorio Emanuele II, é colocado à venda por €7,7 milhões
A Tenuta Val Casotto, retiro de caça de Vittorio Emanuele II no Piemonte, foi colocada à venda por €7,7 milhões. História, hectares e desafios de preservação.
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Tenuta Val Casotto, o retiro de caça de Vittorio Emanuele II, é colocado à venda por €7,7 milhões
Por Chiara Lombardi — A paisagem alpina do Piemonte devolve ao mercado um fragmento importante da nossa memória coletiva: a Tenuta Val Casotto, antiga tenuta de caça do «Pai da Pátria», Vittorio Emanuele II, foi anunciada à venda por 7,7 milhões de euros. São 1.915 hectares que se estendem entre os municípios de Garessio, Pamparato e Roburent — um território que funciona como um espelho do nosso tempo, onde património, economia rural e abandono se encontram.
A propriedade inclui 1.280 hectares de bosques e matas, 478 hectares de prados e pastagens, e a restante porção composta por terrenos incultos, macereti, rochas e cursos d'água. Segundo Armando Camperi, responsável pela agência imobiliária de Mondovì que trata da operação, o pacote conta com cerca de trinta edifícios, muitos em estado de degradação. Para investidores com visão de longo prazo, os ativos econômicos imediatos aparecem claros: madeira de qualidade, locação de pastos (já existem 800 hectares arrendados a criadores locais) e a possibilidade de explorar atividades cinegéticas e turísticas.
Historicamente, a Tenuta Val Casotto e o seu núcleo antigo — a antiga Certosa — narram um roteiro complexo. A Certosa foi fundada pelos monges certosinos em 1172; destruída em incêndios e reconstruída várias vezes, ganhou as formas que conhecemos a partir de 1754, quando o arquiteto Bernardo Vittone conduziu uma significativa intervenção. Após as supressões napoleónicas, em 1837 o complexo passou às mãos de Carlos Alberto, que o transformou em castelo de caça. Foi nesse cenário que Vittorio Emanuele II organizava as suas battute di caccia, convertendo a paisagem num palco das práticas de poder e lazer da Casa Savoia.
No século XX, a tenuta conheceu alternâncias e dispersões: após permanecer com os Savoia até 1881 e seguir para vários proprietários, o fim dos anos 1990 trouxe uma venda em leilão judicial vinculada ao colapso da empresa Ferrovie Nord. Nos anos 2000, a Região Piemonte exerceu direito de prelazione sobre o castelo, enquanto os terrenos passaram para uma família de empresários — antes que o conjunto entrasse em uma espécie de obliteração patrimonial.
Para quem considera desembolsar quase €8 milhões, o investimento é oneroso, mas justificado em parte pela extensão territorial e pelo valor histórico-artístico. A equação, porém, exige uma leitura mais ampla: restauração do patrimônio arquitetônico, requalificação ambiental dos bosques, manutenção das atividades agro-pastoris e um projeto sustentável de turismo de natureza que evite o destino comum de muitos bens rurais históricos — o abandono ou a conversão que dilui sua identidade.
Como analista cultural, vejo na venda da Tenuta Val Casotto um reframe da narrativa coletiva sobre propriedade e memória: o terreno não é apenas um ativo, é um palimpsesto onde se lêem as práticas aristocráticas, as leis do mercado moderno e a urgência de políticas de conservação. Quem comprar não leva apenas hectares; leva um roteiro oculto da sociedade e a responsabilidade de escrever o próximo capítulo sem apagar o anterior.
Informações sobre a operação podem ser solicitadas à agência de Mondovì, que conduzirá as propostas para a propriedade.