Teoria da Classe Armata: o novo mapa do poder militar por David Colantoni

Colantoni expõe como a profissionalização militar criou a 'Classe Armata' e alterou a cidadania; leitura essencial sobre poder militar e democracia.

Teoria da Classe Armata: o novo mapa do poder militar por David Colantoni

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Teoria da Classe Armata: o novo mapa do poder militar por David Colantoni

David Colantoni apresenta, em maio, uma obra que funciona como lente crítica sobre a transformação dos laços entre cidadania, violência legítima e poder: Teoria da Classe Armata. A era do poder militar chega às livrarias no início de maio e será debatida no dia 16 de maio no Salone del Libro de Torino, em um encontro com Luciano Canfora. A obra já está em pré-venda e propõe uma releitura ambiciosa do nosso momento histórico.

O livro se abre com uma epígrafe do volume de Pier Giorgio Ardeni, Le classi sociali in Italia oggi (Laterza, 2024): “Por que as classes desapareceram do discurso público – muito além dos limites da análise sociológica – quando a realidade nos diz que elas estão bem presentes no corpo social?” A partir daí, Colantoni retoma esse fio e aponta uma ausência específica: a da Classe Armata.

A tese central é clara e provocadora: a transição dos exércitos de cidadãos-soldados para exércitos profissionais voluntários — sancionada nos Estados Unidos em 1973 e antecipada pela Grã-Bretanha cerca de uma década antes — não foi somente uma reforma militar técnica, mas uma verdadeira contrarrevolução silenciosa. Ao deslocar o monopólio da violência legítima para forças cada vez mais profissionais e especializadas, a modernidade iluminista cortou um nó histórico entre cidadania e responsabilidade militar.

Colantoni lembra que, na tradição clássica e renaissantista, autores como Tito Lívio e Maquiavel vinculavam diretamente o direito à participação política à capacidade e disposição de defender a polis em armas. Ao romper essa correlação, argumenta o autor, emergiu uma classe nova e distinta: a Classe Armata, formada em torno do controle exclusivo dos meios da força e dotada de uma lógica própria de reprodução e acumulação do poder.

No coração do livro há também um gesto conceitual: uma formulação heurística que recoloca a dinâmica do poder em lugar do ciclo clássico do capital. Em vez do circuito D → M → D’, Colantoni propõe, em diálogo com leituras marxianas, um circuito Potere → Denaro → Plus Potere (P-D-P’): o poder militar captura recursos públicos, que por sua vez alimentam mais poder — um mecanismo que explica tanto a expansão de orçamentos quanto a autonomia política crescente dessa nova classe.

Essa análise não fica apenas no terreno institucional: o autor traça as consequências culturais e simbólicas desta transformação. A profissionalização militar seculariza e monopoliza a experiência da violência legítima, tornando-a menos transparente ao corpo social. O resultado é um enfraquecimento da liturgia cívica que liga serviço, dever e voz pública — um reframe que altera a própria ideia de liberdade política e igualdade entre pares.

Como observadora dos movimentos culturais, enxergo nesse diagnóstico o roteiro oculto de nossa era: quando o poder se retira do espaço público para se especializar, a narrativa social se fragmenta e recria seus heróis — agora uniformizados, treinados e mercantilizados. A leitura de Colantoni funciona como um espelho do nosso tempo, forçando-nos a perguntar quem hoje tem a palavra quando as decisões que definem guerras e fronteiras são tomadas por escalões cada vez mais distantes do debate democrático.

O livro traz ainda análises político-econômicas detalhadas, dados e fórmulas heurísticas que tornam a obra útil tanto para o leitor atento à teoria política quanto para quem busca compreender as novas “guerras autodestrutivas” do nosso século — conflitos que produzem poder e ao mesmo tempo corroem as próprias bases sociais que os originaram.

Em suma, Teoria da Classe Armata de David Colantoni é leitura obrigatória para quem quer decodificar o nascimento de uma nova elite militar e os efeitos dessa mudança sobre cidadania, democracia e memória coletiva. A apresentação em Turim, com Luciano Canfora, promete ser um momento-chave para levar esse debate ao espaço público.