Na Triennale di Milano, acervo histórico da Lavazza revela o ritual coletivo do café com moka

Na Triennale, documentos do Archivio Storico Lavazza revelam como a moka transformou um hábito doméstico em ritual coletivo de design e memória.

Na Triennale di Milano, acervo histórico da Lavazza revela o ritual coletivo do café com moka

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Na Triennale di Milano, acervo histórico da Lavazza revela o ritual coletivo do café com moka

Por Chiara Lombardi — A partir de 12 de maio e até 28 de junho de 2026, o Cuore – Centro studi, Archivi, Ricerca da Triennale di Milano acolhe uma seleção de documentos do Archivio Storico Lavazza que convida a repensar a cultura do café como um fenômeno projetual e coletivo. A mostra, intitulada Serialità di un rituale. Il caffè con la moka nell’epoca della sua riproducibilità tecnica, propõe uma leitura afiada: como a serialidade converte um gesto íntimo em rito compartilhado?

O que parece um hábito doméstico — o preparar do café com a moka — ganha contornos de performatividade padronizada. A exposição demonstra que essa homogeneidade do gesto não é mera tradição espontânea, mas o resultado de uma arquitetura integrada que articula design, produção industrial e comunicação de massa. Do desmembramento do movimento até a reedição dos objetos que o tornam possível, emerge o papel do projeto em construir um imaginário coletivo: a reprodutibilidade técnica não apaga o rito, antes o codifica e o preserva como patrimônio cultural.

O acervo da Lavazza, atualmente em processo constante de digitalização e pesquisa conduzida pelo Promemoria Group, oferece documentos, imagens e materiais publicitários que atuam como pistas para entender essa sedimentação do hábito. Inserida na política da Triennale de valorização de fundos e arquivos do universo do design e da arquitetura, a mostra reforça a ideia de que os arquivos não apenas conservam memórias, mas desenham possibilidades para futuros debates e reinterpretações do cotidiano.

Dentro da programação de Archivissima, festival dedicado aos arquivos, e em celebração à Notte degli Archivi, na sexta-feira, 5 de junho de 2026, a Triennale organiza uma visita guiada pelo Cuore e pela mostra do Archivio Storico Lavazza. A visita, conduzida por mediadores culturais, começa às 18h — com reservas disponíveis em triennale.org — e pretende transformar o público em observador crítico do que nos torna culturalmente iguais e distintos.

Em consonância com o tema de Archivissima 26 — “o que não há” —, a Triennale também exibe o filme Spazio reale o spazio virtuale? (direção de Ugo La Pietra e Davide Mosconi, 1979, 20 minutos). As imagens do filme capturam o Palazzo dell’Arte como um grande espaço vazio, pronto a ser preenchido pelas expectativas e ideias de projetistas, curadores e funcionários. É um exercício quase cinematográfico de imaginar o que ainda não existe: depoimentos de Gae Aulenti, Andrea Branzi, Gillo Dorfles, Aldo Grasso, Vittorio Gregotti, Enzo Mari, Alessandro Mendini, Pierluigi Nicolin, Bruno Munari, Nanda Vigo, entre outros, transformam o vazio em roteiro de possibilidades.

O cruzamento entre o arquivo corporativo da Lavazza e o âmbito curatorial da Triennale revela um roteiro oculto da nossa vida cotidiana — um eco cultural onde o ato de preparar café funciona como reflexo de processos industriais, narrativas de marca e memórias coletivas. Ao visitar a mostra, somos convidados a enxergar a moka não apenas como objeto utilitário, mas como peça de um grande puzzle que conta, por meio de imagens e documentos, a história do projeto e da sociedade.

Nos meses anteriores, o Cuore apresentou outros arquivos importantes, como os de Gae Aulenti e Roberto Sambonet, evidenciando o compromisso da instituição em mapear e ativar patrimônios vinculados ao design e à arquitetura. Esta série de iniciativas confirma que os arquivos são, hoje, laboratórios de sentido: espelhos do nosso tempo e mapas para imaginar futuros possíveis.

Informações práticas: mostra de 12/05 a 28/06/2026; visita guiada em 05/06/2026 às 18h (reserva em triennale.org); exibição do filme Spazio reale o spazio virtuale? (1979, 20 min.).