Veneza 83: o Lido em cena — entre o sublime e o absurdo na primeira noite
Veneza 83: o Lido entre glamour e absurdo na estreia — Clooney, Jack O’Connell, Danny Boyle e a umidade como protagonista invisível.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Veneza 83: o Lido em cena — entre o sublime e o absurdo na primeira noite
Há quem vá ao Lido apenas pelo cinema, quem corra atrás do red carpet, e quem apareça ali só para garantir um brinde, um brinde grátis, ou um brinde de paquera no bar do Excelsior. E depois existem nós: com bloco de notas e ironia, contando aquilo que não cabe nas conferências oficiais — os aplausos que viram mar, os silêncios que cortam a plateia como um take longo, os looks que desafiam a gravidade e o senso comum, os boatos que se formam mais rápido que os táxis-boat. A Mostra de Veneza é sempre esse palco em que o sublime divide camarim com o absurdo.
Na abertura, a expectativa foi cumprida. Sobre o filme de abertura, Ink de Danny Boyle, pouco se pode revelar: o enredo permanece sob véu. Mas o Lido já está apaixonado por seu protagonista, Jack O’Connell — ou estava, ao menos, até a chegada dele no tapete vermelho vestindo um casacão que pareceria exagerado até para um Leo DiCaprio a atravessar águas árticas. A cena, porém, foi ofuscada por outro rei do festival: George Clooney. Saudando, distribuindo autógrafos, esbanjando aquele sorriso que resume uma carreira, atrapalhando (com charme) as legiões de corações que ainda batem por ele. Até se arriscou a um italiano turístico, fez fotos e nos lembrou por que algumas estrelas têm status de lenda.
Mas, como em todo roteiro bem escrito, há falhas de continuidade. As conferências de imprensa tornaram-se pequenas comédias de erros, com perguntas que não são perguntas, longos monólogos autocelebratórios e respostas dadas com paciência olímpica. Entre os convidados, Claire Foy, do elenco de Ink, inaugurou a temporada dos atores economicamente verbais — respostas curtas, olhares que dizem mais do que falas.
Quem realmente roubou a cena, porém, foi a protagonista invisível da Mostra: uma umidade implacável que faz suar até a água do batismo e transforma qualquer figurino em campo de batalha têxtil. Ela é o antagonista climático do festival, como um contracampo que desafia a elegância do tapete vermelho.
No off, o espetáculo continua: caçadores de autógrafos que chegam fora de tempo, fãs que ainda sonham com uma assinatura no caderno, e aqueles que desfilam num red carpet particular, posando para fotógrafos imaginários. Também não faltam momentos de contracanto romântico — como quando Clooney declara amor eterno à esposa, sem cerimônia por conta das legiões de admiradores masculinos e femininos que suspiram em coro.
Para os cinéfilos, um apêndice nostálgico: conta-se que Richard Donner, ao lançar Arma Letale, teria se inspirado no ar-condicionado glacial das salas da Mostra — uma corrente polar eterna que compete com o calor externo. Essa tradição revisita quem passa por aqui: fortalece corpo e espírito, e deixa memórias em forma de imagem e arrepios.
O primeiro dia no Lido foi, portanto, um quadro completo: o sublime de uma estreia envolta em mistério, a presença magnética de astros, as patetices públicas e a humidade como antagonista constante. A Mostra, nesse sentido, funciona como um espelho do nosso tempo — um cenário onde o glamour revela, por reflexo, as pequenas fissuras da indústria e da cultura popular.

