Por que o 'vintage' virou estratégia dos palinsestos italianos: de Canzonissima a La Ruota della Fortuna
O palinsesto italiano aposta no vintage: de Canzonissima a La Ruota della Fortuna, formatos antigos ganham nova vida para conquistar audiências.
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Por que o 'vintage' virou estratégia dos palinsestos italianos: de Canzonissima a La Ruota della Fortuna
Assumo minha xícara de café e observo a tela: a tevê italiana está em processo de reencenação do próprio passado. Amanhã, sábado, 21 de março, a Rai1 estreia a nova versão de Canzonissima, o histórico varietà que marcou as noites italianas entre 1956 e 1975, desta vez nas mãos experientes de Milly Carlucci. Não é apenas nostalgia; é uma decisão editorial que transforma arquivos em capital cultural para conquistar audiências contemporâneas.
O retorno do vintage ao centro do palinsesto surge como uma tendência que altera o roteiro da televisão: em vez de buscar apenas o novo, as redes revisitam seus repertórios e remontam formatos que funcionaram como espelhos da sociedade em outras épocas. É um reframe da realidade televisiva, onde o familiar vira instrumento de competição.
Tomemos La Corrida - Dilettanti allo sbaraglio como exemplo: format criado por Corrado e Riccardo Mantoni que atravessou décadas e emissoras. Após fases de ouro com nomes como Corrado e Gerry Scotti, o programa ressurgiu em diferentes casas e hoje ganhou nova vida no Nove com Amadeus, já em sua segunda edição — prova de que o verniz do passado ainda reluz quando bem polido.
Mediaset também transformou o revival em vantagem estratégica. O retorno de La Ruota della Fortuna ao prime time do Canale 5, sob a condução de Gerry Scotti e Samira Lui, evoca o iconismo de Mike Bongiorno e disputa audiência com o colosso Affari Tuoi. É a demonstração de que uma fórmula consolidada pode resistir à fragmentação do tempo de tela.
A trajetória de Scherzi a parte confirma o efeito: nascido em 1992, com períodos de hiato e renovações, o programa voltou em 2 de março com Max Giusti e estreou com 26% de share e quase 3,6 milhões de espectadores — um número que atesta como a ideia de ver celebridades postas à prova mantém seu apelo.
O canteiro do vintage não para: o Canale 5 prepara Super Karaoke, reedição do espetáculo itinerante que consagrou Fiorello nos anos 90, agora com Michelle Hunziker, cujas gravações ocorrerão em Ferrara nos dias 26 e 27 de março. E circulam rumores sobre o retorno de Ok, il prezzo è giusto!, nostálgico pelo refrão "Cento, cento, cento!" e associado a nomes como Iva Zanicchi — possivelmente de volta à sua casa original, o Canale 5, após negociações que incluíam uma hipótese de ida à Rai.
Mais do que reciclagem, esse movimento revela uma leitura estratégica do patrimônio audiovisual: redes que convocam o passado estão, na verdade, reinterpretando memórias coletivas para dialogar com a contemporaneidade. É a semiótica do viral que encontra estabilidade em formatos já consagrados — um espelho do nosso tempo em que o familiar oferece conforto num cenário de constante mudança.
Como analista cultural, vejo nessa aposta uma dupla leitura: por um lado, uma vontade legítima de recuperar narrativas que moldaram gerações; por outro, uma resposta pragmática às pressões de audiência e à fragmentação do consumo. No álbum televisivo italiano, reabrir páginas antigas está se mostrando uma estratégia eficaz para compor o próximo capítulo do entretenimento.
Chiara Lombardi, Espresso Italia


