Willem Dafoe leva o olhar do teatro ao Oriente na Bienal de Veneza: “A conexão entre povos é o novo palco”
Willem Dafoe dirige o 54º Festival de Teatro da Bienal de Veneza com foco no Oriente e na conexão entre culturas. Leia a seleção e o conceito curatorial.
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Willem Dafoe leva o olhar do teatro ao Oriente na Bienal de Veneza: “A conexão entre povos é o novo palco”
Willem Dafoe, ator de 70 anos naturalizado italiano e nomeado diretor artístico do setor de teatro da Bienal de Veneza para o biênio 2025-2026, revelou o programa do 54º Festival Internacional do Teatro, que acontece em Veneza de 7 a 21 de junho. O cartaz desta edição volta o olhar para o Oriente — China, Japão, Índia, Indonésia e Nova Zelândia — numa proposta que quer reabrir o espaço cênico à diferença e ao encontro.
Depois de uma edição anterior dedicada ao corpo, à presença do intérprete e a uma poética que ultrapassa a narrativa linear, Dafoe optou por convidar criações provenientes de tradições teatrais menos familiars ao centro institucional ocidental. “É a falta de familiaridade que nos permite redescobrir as origens do teatro e reavivar o contato essencial entre artista e espectador”, afirma o diretor, num comentário que soa como um convite para uma escuta mais atenta do que nos parece estranho.
“A arte verdadeiramente singular mora nas fendas, não na superfície polida”, diz Willem Dafoe, descrevendo o princípio curatorial desta edição. Na seleção do programa, muitas obras ainda estavam em processo de gestação: o critério não foi apenas a conclusão formal, mas o impulso que motiva a criação — aquela centelha que estabelece conexões entre povos e culturas e que questiona “para onde estamos caminhando”.
Os currículos dos artistas, claro, contaram: nomes já reconhecidos como Emma Dante — que receberá o Leão de Ouro pela carreira e prepara para Veneza a nova criação I fantasmi di Basile, inspirada nas fábulas de Lo cunto de li cunti de Giambattista Basile — convivem com adaptações pensadas ad hoc, como a versão de Lemi Ponifasio para o seu Star Returning. O premiado diretor greco-albanês Mario Banushi, vencedor do Leão de Prata, leva a trilogia Romance familiare, marcada por imagens poéticas e visões evocativas.
Perante as várias propostas, Dafoe evita hierarquias afetivas: “Não tenho uma criação favorita; em cada peça há força e fragilidade. Interessa-me o espírito que impulsiona um trabalho. Não se trata de transmitir uma ideia definitiva, mas de explorá-la — ver a diferença do possível é o prazer do teatro.”
Na visão do diretor, o papel contemporâneo do teatro é despertar o indivíduo e expandir sua curiosidade. O palco torna-se um espelho do nosso tempo e, ao mesmo tempo, um roteiro oculto que propõe outros caminhos possíveis para a convivência entre culturas. Ao privilegiar obras fora do cânone ocidental, a Bienal busca um reframe da realidade: não apenas mostrar o outro, mas compor um diálogo onde o outro altera e enriquece a nossa própria linguagem cênica.
Essa opção curatorial tem um peso simbólico: num momento em que as narrativas hegemônicas se fragmentam, apostar na conexão entre povos — seja via tradições milenares do Oriente ou por meio de vozes contemporâneas do Pacífico — é desenhar um cenário de transformação. O festival promete, assim, não só estreias e adaptações, mas encontros que funcionam como um laboratório de percepção coletiva.
Para o público e para a cena internacional, a proposta de Willem Dafoe representa um gesto de confiança no palco como lugar de aproximação. Mais do que entretenimento, trata-se de um exercício de tradução cultural — uma tentativa de escutar a outra fala e, ao fazê-lo, escutar também a nossa. Em tempos de polarização, o formato se apresenta como um antídoto: o teatro como arte que reensina a convivência.
Como observadora do presente e tradutora de tendências, enxergo essa curadoria como um pequeno terremoto simbólico no mapa das artes performativas: um movimento que reorienta olhares e convida a imaginar mundos possíveis — o verdadeiro núcleo do fazer teatral.