«Corpi da macello»: livro denuncia a persistência das mortes no trabalho na Itália
Livro 'Corpi da macello' denuncia a persistência das mortes no trabalho na Itália e clama por medidas de prevenção e responsabilização.
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«Corpi da macello»: livro denuncia a persistência das mortes no trabalho na Itália
Corpi da macello é o título do novo livro de Giovanni Mancinone, 75 anos, jornalista investigativo que durante décadas trabalhou na Rai como vice‑caporedattore da Tgr Molise e manteve a precisão de repórter agora transformada em depoimento literário. Publicado pela Rubbettino, o volume lança um olhar rigoroso sobre a repetição de tragédias que a Itália ainda não conseguiu frear: as chamadas mortes brancas.
O autor, já autor de outros sucessos como Molise criminale e Mostri, coleciona prêmios e uma carreira de apurações. Neste livro negro sobre acidentes laborais, Mancinone reúne uma série de episódios ocorridos entre 1872 e 2023, acrescentando pormenores investigativos e, em alguns casos, informações inéditas. São relatos que compõem um panorama sombrio: desde operários presos em túneis no San Gottardo, na Suíça, no século XIX, até o desastre de Marcinelle, na Bélgica (8 de agosto de 1956), onde 250 mineiros — 136 italianos — perderam a vida, passando pelo incêndio na siderúrgica Thyssenkrupp, em Turim, em 5 de dezembro de 2007.
O livro não economiza episódios chocantes: a jornada de trabalhadores rurais esgotados até a morte nas campanhas de Andria, Puglia, caso que impulsionou a legislação contra o caporalato; a pescadora veneziana vítima numa manhã de estreia; o jovem de 18 anos que faleceu durante o último dia de estágio num complexo metalmecânico da província de Udine. Mancinone observa que algumas narrativas ainda estão al vaglio dei giudici, sob investigação judicial.
A mensagem é dura e direta: pessoas saem de casa para cumprir seu dever e nunca mais voltam. Em certos episódios, nem mesmo restos humanos foram recuperados. Essa recorrência de tragédias põe em xeque a eficácia das políticas e dos mecanismos de prevenção. Como lembra Cesare Damiano — ex‑secretário geral da CGIL, ministro do Trabalho e presidente da Comissão Lavoro da Câmara —, no boom econômico pós‑Marcinelle o país registrava mais de 4.000 mortes laborais por ano; hoje, a cifra não consegue cair abaixo de mil. É um sintoma de um motor econômico que acelera sem calibragem adequada de segurança.
O livro também contextualiza instituições: o papel do ISTAT, ativo desde 1926 no registro de dados, e a fundação do INAIL, em 1933, cuja história deve ser lida no contexto das transformações institucionais do século XX. Mancinone sugere que, apesar de estruturas formais, persistem lacunas operacionais e culturais que mantêm as fatalidades no trabalho como uma constante inaceitável.
Como economista e observadora das dinâmicas de desenvolvimento, vejo este trabalho como um alerta técnico e ético: trata‑se de calibrar não apenas normas, mas incentivos e fiscalização — os freios que protegem o capital humano. A obra de Mancinone é necessária. Faz o leitor encarar, com dados e histórias humanas, a urgência de transformar tragédias em prevenção sistemática. Não é apenas um inventário de horrores; é um convite à ação, uma chamada para que as engrenagens da economia coloquem a segurança no centro do design de políticas e práticas empresariais.