Guerra comercial EUA-China: cronologia, impacto das tarifas e a trégua rumo a Pequim

Cronologia da guerra comercial EUA-China: tarifas, acordos, trégua e impacto nas exportações. Análise e cenário antes da visita a Pequim.

Guerra comercial EUA-China: cronologia, impacto das tarifas e a trégua rumo a Pequim

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Guerra comercial EUA-China: cronologia, impacto das tarifas e a trégua rumo a Pequim

Por Stella Ferrari — A histórica guerra comercial entre os dois maiores blocos econômicos do planeta acelerou em 2018 e passou por ciclos de escalada e contenção até a recente fase de trégua. A seguir, uma cronologia das medidas mais relevantes e suas consequências para a China e os Estados Unidos.

O episódio inicial ocorreu em 2018, na administração Trump, quando, em 22 de janeiro, o governo americano anunciou tarifas entre 20% e 50% sobre painéis solares e máquinas de lavar importadas da China. O confronto evoluiu em ondas de medidas até janeiro de 2020, quando foi assinado o chamado acordo de "fase um", que levou a cortes tarifários pontuais e a compromissos de Pequim para aumentar a compra de bens americanos.

Mesmo com o acordo, as tensões não cessaram. Durante o mandato de Joe Biden houve nova escalada: tarifas de 100% sobre veículos elétricos, 50% sobre células solares e 25% sobre baterias para veículos elétricos, minerais críticos, aço e alumínio — medidas que atuaram como um conjunto de freios fiscais sobre cadeias de suprimento estratégicas.

A virada ocorreu novamente com a segunda presidência Trump. Em 1º de fevereiro de 2025, o presidente americano aumentou as tarifas sobre bens chineses em 10%. A resposta de Pequim foi rápida: em 4 de fevereiro anunciou tarifas de 15% sobre produtos baseados em carvão e gás natural liquefeto (GNL) e de 10% sobre petróleo bruto, máquinas agrícolas e automóveis de alta cilindrada.

Um mês depois, Washington adicionou mais 10 pontos percentuais às tarifas, elevando certas alíquotas cumulativas a 20%. Em 4 de março, Pequim impôs contramedidas: 15% sobre frango, trigo, milho e algodão dos Estados Unidos, e 10% sobre sorgo, soja, carne suína, bovina, produtos do mar, frutas, hortaliças e laticínios.

O momento de maior tensão ocorreu em 2 de abril de 2025 — o chamado "Liberation Day" — quando a Casa Branca anunciou um pacote global de novas tarifas, aumentando alíquotas sobre bens chineses em mais 34%, com efeitos cumulativos que resultaram em alíquotas efetivas de cerca de 54% sobre importações chinesas já na semana seguinte. Em alguns segmentos, após sucessivos aumentos, os encargos chegaram a picos de 245%.

Contudo, a escalada deu lugar a uma tentativa de contenção. Em 12 de maio de 2025 os dois países firmaram um acordo para reduzir as tarifas como estratégia de alívio das tensões: os Estados Unidos aceitaram elevar as tarifas a um patamar de cerca de 30% para produtos chineses, enquanto Pequim recuou para tarifas da ordem de 10% sobre produtos americanos, com revisão prevista em 90 dias.

Depois do encontro em Genebra, em maio de 2025, as tarifas recíprocas de Trump caíram de picos de 145% para cerca de 30% (dependendo da categoria), e as medidas chinesas foram reduzidas de 125% para 10%. Permanecem, porém, tarifas setoriais adicionais sobre aço, alumínio, automóveis e categorias específicas — elementos que funcionam como a calibragem de políticas em um motor de economia global em tensão.

Em outubro de 2025, as duas potências estenderam a trégua comercial temporária por um ano, com vigência até novembro de 2026. A prioridade passou a ser a renovação dessa trégua, sobretudo diante da visita do presidente americano a Pequim, iniciada amanhã, marco diplomático que pode redefinir o desenho das relações comerciais.

Mesmo com os mecanismos de restrição, os dados mostram resiliência da máquina exportadora chinesa: em abril de 2026 as exportações da China para os Estados Unidos cresceram 11,3% em relação ao ano anterior, sinalizando impacto limitado das tarifas sobre o fluxo comercial em grande escala.

Em síntese, o cenário atual é mais moderado do que nas fases mais agudas do conflito, mas permanece uma partida de alta performance entre políticas de proteção e estratégias de integração global. A próxima visita bilateral funcionará como teste de calibragem: se as conversas forem bem afinadas, podemos esperar uma desaceleração das medidas punitivas; se houver rupturas, a economia global pode sentir novas pressões — um lembrete de que, em geopolítica econômica, a aceleração de tendências pode ser tão decisiva quanto a aplicação de freios.