EUA e Japão coordenam intervenção para sustentar o yen: gesto de “amizade” e impacto global
EUA e Japão coordenam intervenção para sustentar o yen; operação vendeu euros para comprar yen e visa conter volatilidade e pressões inflacionárias no Japão.
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EUA e Japão coordenam intervenção para sustentar o yen: gesto de “amizade” e impacto global
Por Stella Ferrari — Os Estados Unidos confirmaram uma intervenção cambial coordenada com o Japão para sustentar o yen, um movimento que o presidente Donald Trump descreveu como um "gesto de amizade" e, segundo ele, também "positivo para a economia global". A ação coincidiu com uma valorização repentina da moeda japonesa após semanas de enfraquecimento frente ao dólar.
Fontes consultadas pelo Financial Times relataram que o Federal Reserve Bank de Nova York tomou a decisão atípica de vender euros para comprar yen em nome do Tesouro americano, numa operação conjunta com Tóquio ocorrida na sexta-feira. Interrogado a bordo do Air Force One sobre o motivo de Washington ter desembolsado recursos para apoiar a moeda japonesa, Trump respondeu: "Porque temos um bom relacionamento com o Japão" e afirmou que os EUA obterão um "benefício financeiro" com a decisão, reiterando que, acima de tudo, se tratou de um ato de cooperação bilateral.
"Somos muito, muito fortes financeiramente. Eles, como sabem, tinham um yen em enfraquecimento e precisavam de uma pequena ajuda. E nós estamos sempre ao lado do Japão", disse o presidente, em comentário que incluiu uma referência histórica que provocou reações ao mencionar Pearl Harbor.
Em Tóquio, a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, confirmou a operação conjunta: seu ministério "comprou yen em coordenação com o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos" na sexta-feira, numa iniciativa destinada a conter "a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados" da moeda nas últimas semanas. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ecoou a posição em rede social, afirmando que "não hesitaremos em participar de futuros intervenções conjuntas" e citando a segurança econômica e a aliança entre os dois países.
O anúncio ocorreu após o yen atingir níveis extremamente fracos: em julho chegou a 163,24 por dólar, mínimo desde dezembro de 1986, pressionado pelo diferencial de taxas entre Japão e Estados Unidos. Na sexta-feira, a cotação registrou 160,53, depois de ter tocado 158 no dia anterior diante das especulações de intervenção.
Quanto ao tamanho da operação, o Financial Times citou estimativas de cerca de US$ 52,8 bilhões, enquanto o jornal econômico Nikkei avaliou entre US$ 37,5 bilhões e US$ 44 bilhões. Se confirmado, trata-se da primeira intervenção coordenada entre Estados Unidos e Japão em apoio ao yen desde 1998.
Do ponto de vista macroeconômico, um yen muito desvalorizado eleva mecanicamente o custo das importações japonesas — em especial de hidrocarbonetos cotados em dólar — e alimenta pressões inflacionárias, num ano em que os preços do petróleo subiram significativamente. A intervenção visa, portanto, não apenas conter flutuações abruptas, mas também estabilizar um elemento-chave do balanço de preços no arquipélago.
Como estrategista, enxergo essa operação como uma calibragem pontual do motor cambial: ao vender euros e comprar yen, os coordenadores atuaram como engenheiros de política, ajustando o torque entre moedas para evitar solavancos que possam desestabilizar sinistros setores industriais e a trajetória inflacionária. Ainda assim, a intervenção levanta questões sobre a interação entre políticas cambiais e monetárias — os chamados "freios fiscais" e mecanismos de mercado — e sobre a sustentabilidade de ações coordenadas em um contexto de juros diferenciados.
Em suma, a iniciativa reduz a volatilidade no curto prazo e demonstra a disposição dos dois aliados em intervir quando o design de políticas macro exige. Resta observar como essa intervenção afetará fluxos comerciais, reservas e expectativas de mercado nas próximas semanas.