Marcinelle: 70 anos de memória para evitar que a mercificação do trabalho se repita, diz Pagliaro (Inca Cgil)
Pagliaro (Inca Cgil) lembra Marcinelle: 70 anos de memória para combater a mercificação do trabalho e proteger migrantes e trabalhadores hoje.
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Marcinelle: 70 anos de memória para evitar que a mercificação do trabalho se repita, diz Pagliaro (Inca Cgil)
Por Stella Ferrari — Em entrevista ao Espresso Italia/Labitalia, Michele Pagliaro, presidente do Patronato Inca Cgil, reafirmou a importância de manter viva a lembrança da tragédia de Marcinelle, ocorrida em 8 de agosto de 1956, quando 262 trabalhadores perderam a vida — entre eles 136 mineiros italianos. "O dia 8 de agosto de 1956 é uma data que não pode ser esquecida", disse Pagliaro, lembrando que o episódio faz parte de um ciclo dramático que antecedeu e sucedeu a catástrofe.
Pagliaro recordou que, no período entre 1946 e 1955, cerca de 500 operários italianos, em sua maioria mineiros, morreram em acidentes de trabalho. Esse fluxo foi intensificado pelo acordo conhecido como "Uomo-Carbone", assinado em 23 de junho de 1946 — que em 2026 completa 80 anos — e que trouxe milhares de italianos às minas belgas em troca de carvão a preços favoráveis para a Itália do pós‑guerra. "O acordo de 1946 simbolizou, em grande medida, a mercificação do trabalho — um processo que, infelizmente, continua a ecoar nos dias de hoje", afirmou.
Para o presidente do Inca, a memória de Marcinelle deve servir como freio e calibragem das políticas laborais: "É uma lição para exigir melhores condições de trabalho. Ainda hoje, o motor da economia não pode girar sobre a negligência com a vida humana". Pagliaro sublinhou que a migração laboral italiana permanece intensa: atualmente, entre 130 e 140 mil trabalhadores deixam o país por ano, e esse movimento não se restringe aos jovens qualificados.
Os dados citados pelo dirigente revelam que, em 2024, 67,2% dos emigrantes italianos não possuíam diploma universitário. "Isso demonstra que partem todos — não apenas os graduados. Mesmo assim, os 25-30 mil formados que saem anualmente equivalem a uma cidade desaparecendo do mapa", disse Pagliaro, num tom que mistura análise demográfica e o pragmatismo do design de políticas.
Quanto às causas contemporâneas da perda de vidas no trabalho, Pagliaro observou que, se as mortes já não ocorrem predominantemente nas minas, elas persistem em setores marcados por cadeias de subcontratação: "Morre-se nos contratos, nos subcontratos — é aí que fica evidente a mercantilização do trabalho, sobretudo em funções de baixo perfil que ainda necessitam de progresso real".
O Patronato Inca Cgil tem mantido a chama da lembrança acesa e, para o 70º aniversário, organizou uma série de iniciativas. "Estamos na Bélgica para participar da cerimônia oficial de recordação", informou Pagliaro. Entre as ações, o Inca restaurou a obra monumental "Il ventre della terra", do artista Antonio Nocera — uma esfera de bronze partida, da qual emergem casas e árvores, símbolo de renascimento e resiliência, presente há 20 anos por doação do Patronato.
Como estrategista que olha os mercados com precisão de engenharia, concluo que a memória de Marcinelle é um componente essencial da política pública: serve como calibragem institucional para que os freios fiscais, as normas de segurança e os instrumentos de proteção social sejam desenhados com robustez, evitando que a economia acelere à custa da vida humana. A homenagem é, portanto, um alerta técnico e ético — a lembrança é a ferramenta que previne a repetição das mesmas falhas.