Por que o ouro segue em queda: vendas de bancos centrais, casos da Turquia, Rússia e Polônia

Entenda por que o ouro cai: vendas de bancos centrais, casos da Turquia, Rússia e Polônia e impactos no preço e nas reservas.

Por que o ouro segue em queda: vendas de bancos centrais, casos da Turquia, Rússia e Polônia

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Por que o ouro segue em queda: vendas de bancos centrais, casos da Turquia, Rússia e Polônia

Por Stella Ferrari — O recente recuo do ouro não é um acidente de percurso, mas o resultado de uma recalibragem das reservas por parte dos bancos centrais em um momento em que choques energéticos e a escalada do conflito no Médio Oriente alteram a dinâmica global. Analistas do Financial Times e do World Gold Council apontam que governos têm preferido liberar lingotes para sustentar moedas nacionais e reforçar posições fiscais, transformando o tradicional ativo-refúgio em instrumento de política macroeconômica.

Os números ilustram a mudança de marcha: no ano passado as compras líquidas de ouro por bancos centrais somaram cerca de 860 toneladas, porém já representaram uma queda de 20% em relação ao ano anterior. Em 2026, além da Turquia, países como a Rússia aparecem entre os vendedores — Moscou cedeu cerca de 15 toneladas nos meses de janeiro e fevereiro — e existe debate público na Polônia, onde o chefe do banco central propôs a venda de lingotes para financiar a defesa, proposta que esbarrou em resistência do governo.

O impacto no mercado foi acelerado por saídas de capitais dos fundos lastreados em ouro (os ETFs), com quatro semanas consecutivas de resgates após a eclosão do conflito no Médio Oriente, à medida que investidores realizavam lucros. O metal negociou-se por volta de US$ 4.650 por onça troy, refletindo não só a maior oferta no mercado, mas também a alteração do comportamento dos detentores oficiais.

Casos emblemáticos mostram a diversidade de estratégias. A Turquia destacou-se ao vender ou emprestar cerca de US$ 20 bilhões em ouro desde o início da crise com o Irã — uma série de operações que contribuiu para a maior queda mensal do preço do metal desde 2008. Dados analisados pela Metals Focus indicam que o banco central turco alienou 52 toneladas entre 27 de fevereiro e 27 de março, reduzindo reservas líquidas para cerca de 440 toneladas. Paralelamente, a mesma instituição operacionalizou swaps de aproximadamente 79 toneladas, liberando lingotes ao mercado para gerar receita e segurar a lira.

Enquanto isso, a França anunciou a repatriação de suas reservas e declarou não deter mais ouro nos Estados Unidos, evidenciando a reorganização geográfica das reservas. Em contrapartida, o Banco Popular da China realizou uma aquisição relevante de 160.000 onças troy em março — seu maior movimento em mais de um ano — ressaltando que nem todos seguem a direção das vendas.

Operadores de mercado avaliam que novas vendas poderão vir de países importadores de petróleo afetados pela crise energética, como a Índia, ou de nações da Ásia Central que detêm reservas significativas. Em suma, vemos uma reconfiguração do “motor da economia” das reservas internacionais: a calibragem de ativos que antes atuavam como freios contra a inflação passa a servir à estabilidade cambial e fiscal. Para investidores, a lição é clara: o preço do ouro reage tanto a choques geopolíticos quanto à engenharia de políticas das autoridades monetárias, e exige leitura técnica e estratégica — como quem ajusta a suspensão de um veículo de alta performance para ganhar tração em pisos variados.