Recuperação da Floresta Vaia pode integrar mercado de créditos de carbono com projeto piloto CambiaMenti
Projeto CambiaMenti quer transformar recuperação da floresta Vaia em créditos de carbono locais, alinhado ao CRCF e ao carbon farming europeu.
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Recuperação da Floresta Vaia pode integrar mercado de créditos de carbono com projeto piloto CambiaMenti
Apontando para uma nova fase na governança climática europeia, o projeto CambiaMenti propõe transformar o restauro da floresta Vaia em um ativo verificável no mercado de créditos de carbono. A iniciativa foi apresentada durante o terceiro European Carbon Farming Summit, em Pádua, e é uma das primeiras a operacionalizar, em escala territorial, o Carbon Removal Certification Framework (CRCF), o quadro regulamentar europeu que viabilizará o chamado carbon farming a partir do verão de 2026.
Segundo Daniele Pernigotti, CEO da Aequilibria e presidente do comitê técnico europeu CEN/TC 467 sobre mudanças climáticas, CambiaMenti é um piloto que traduz o CRCF para uma cadeia local de produção e compra de créditos de remoção de carbono. "O projeto reúne, na mesma mesa, proprietários florestais, agricultores e gestores do território, permitindo um vínculo direto entre quem gera e quem adquire os créditos", afirma Pernigotti. Esse encadeamento reduz a dependência de intermediários e faz com que os recursos gerados pela compensação permaneçam no próprio território onde os trabalhos são realizados.
O contexto de mercado justifica a iniciativa. Nos últimos anos, o mercado global de créditos de carbono viveu uma volatilidade acentuada: o mercado spot perdeu mais de 75% do seu valor, caindo de mais de 2 bilhões de dólares para cerca de 500 milhões em 2024. Em contraste, os acordos de compra direta de remoção certificada ultrapassaram 7 bilhões de dólares em 2025, sinalizando demanda robusta por instrumentos verificáveis e rastreáveis.
Para a Itália, o potencial é significativo. O país conta com mais de 11 milhões de hectares de floresta, um capital natural que pode ser integrado ao mercado de carbon farming, desde que ancorado a um sistema de certificação uniforme e transparente. É justamente essa lacuna que o CambiaMenti pretende preencher, iniciando o processo pela região do Vêneto — território particularmente adequado devido ao impacto da tempestade Vaia, que destruiu mais de 12.000 hectares de florestas na região.
Do ponto de vista estratégico e econômico, o projeto atua como uma recalibragem fina do motor da economia territorial: ao conectar compradores e produtores localmente, promove uma circulação de recursos com maior valor agregado para as comunidades rurais. É uma aceleração de tendência que combina integridade ambiental com desenho de políticas pró-mercado.
Na prática, o piloto deverá testar metodologias de medição de remoção de carbono, processos de certificação e modelos contratuais que priorizem transparência. O objetivo é evitar os "ruídos" que levaram à crise de credibilidade do mercado, oferecendo aos compradores instrumentos claros para verificar a origem e o impacto ambiental dos créditos adquiridos.
Como estrategista que acompanha risco e retorno em mercados de alto desempenho, vejo o CambiaMenti como uma iniciativa que aposta na engenharia institucional: é a calibragem de um sistema onde incentivos econômicos, padrões técnicos e governança local atuam como freios e alavancas ao mesmo tempo. Se bem sucedido, o piloto pode tornar-se um modelo replicável em outras bacias florestais europeias e converter recursos naturais degradados em fluxos financeiros sustentáveis para a restauração.
O desafio, contudo, permanece na implementação: é necessário garantir que as metodologias do CRCF sejam aplicadas com rigor científico, que os mecanismos de monitoramento sejam robustos e que os fluxos econômicos não se percam em intermediários. A transparência e a rastreabilidade são as chaves para transformar a recuperação da floresta Vaia numa peça confiável do mercado global de créditos de carbono.
Assina, Stella Ferrari — economista sênior, Espresso Italia. Uma visão que une alta performance financeira e responsabilidade territorial, com a precisão de quem entende de design de políticas e engenharia de mercados.


