Tempo Altro: novo álbum de Stefano Mainetti ganha vida pela guitarra de Flavio Cucchi
Tempo Altro, de Stefano Mainetti, ganha interpretação sensível de Flavio Cucchi na chitarra, unindo memória, poesia e tradição musical.
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Tempo Altro: novo álbum de Stefano Mainetti ganha vida pela guitarra de Flavio Cucchi
Por Stella Ferrari — 25 de junho de 2026
Em um projeto que alia memória, técnica e sensibilidade interpretativa, Tempo Altro reconstrói fragmentos da infância e do percurso criativo do compositor Stefano Mainetti. O álbum parte de uma lembrança decisiva: o mestre elementar do jovem Mainetti foi nada menos que o poeta Giorgio Caproni, referência maior da literatura italiana do século XX. Essa conexão com a poesia, segundo as notas do disco organizadas por Riccardo Giagni, também carrega uma ligação íntima com a chitarra, instrumento presente no universo familiar de Caproni pela habilidade de sua mãe, Anna.
Não é casual, portanto, que a chitarra seja o eixo narrativo do álbum. Em Tempo Altro convivem peças para violão clássico que dialogam com a tradição ibérica e latino-americana, sempre temperadas por uma escrita melódica de matriz italiana. O resultado é um discurso musical reconhecível: lírico, narrativo e sofisticado — como um motor calibrado com precisão entre memória e invenção.
O repertório do disco alterna composições originais, transcrições de páginas emblemáticas da produção de Mainetti e arranjos de suas trilhas sonoras mais célebres. O ponto alto conceitual é a inclusão de Rendering Revolution, originalmente concebido como projeto de realidade aumentada e aqui apresentado em versão para cinco violões, ampliando a paisagem sonora e a interação entre vozes instrumentais.
Em algumas faixas, o próprio Stefano Mainetti atua como intérprete na chitarra, por exemplo em Biglietto lasciato prima di non andare via e na versão solo de Rendering Revolution. No entanto, é a presença interpretativa do violonista Flavio Cucchi que empresta à obra sua ressonância mais intensa. Segundo Mainetti, “a escrita musical é apenas uma etapa do percurso; para que a música expresse plenamente sua voz, é necessário o encontro com um intérprete de grande sensibilidade. A inteligência musical e a arte de Flavio Cucchi contribuíram decisivamente para revelar a essência das partituras de Tempo Altro”.
Do lado de Cucchi, o diálogo artístico nasceu de afinidade imediata: “A colaboração com Stefano em Tempo Altro nasceu de uma sintonia artística espontânea. A afinidade de gostos musicais tornou imediata a compreensão entre compositor e intérprete, permitindo-me abordar essas páginas com liberdade expressiva e profundo envolvimento”.
No conjunto, o álbum configura-se como um percurso de memória e transformação — um “tempo outro” em que a chitarra atua como espaço de escuta interior, entre evocação poética e escrita musical contemporânea. Para quem observa o mercado cultural como um sistema que requer fina calibragem — minha metáfora favorita, vinda do mundo da engenharia de políticas —, este lançamento representa uma acertada união entre projeto autoral e capacidade interpretativa, capaz de acelerar tendências de apreciação por repertórios híbridos e sofisticados.
Tempo Altro é, portanto, uma proposta que fala tanto ao ouvido quanto à memória, pensada para ser apreciada por ouvintes exigentes e por programadores culturais que buscam repertórios com resistência no tempo.