Von der Leyen: crise custou €27 bilhões em 60 dias e expõe dependência energética
Von der Leyen estima €27 bi em 60 dias; UE busca reduzir dependência de combustíveis fósseis e acelerar eletrificação e reservas estratégicas.
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Von der Leyen: crise custou €27 bilhões em 60 dias e expõe dependência energética
Em discurso na sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, quantificou o impacto imediato da escalada no Golfo: uma perda estimada em quase 500 milhões de euros por dia, que em 60 dias se traduz em um aumento das despesas de importação de combustíveis fósseis superior a 27 bilhões de euros.
“Esta é a segunda grande crise energética num espaço de apenas quatro anos. A lição deveria ser clara: num mundo turbulento, não podemos depender excessivamente da energia importada”, afirmou von der Leyen. Com a voz firme de quem aconselha conselhos de administração, ela sublinhou a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis importados e de acelerar a produção interna de energia limpa, privilegiando renováveis e a nuclear, no respeito à neutralidade tecnológica.
A proposta de Bruxelas articula duas preocupações complementares: a salvaguarda das finanças públicas e a prevenção de estímulos que incentivem um regresso aos combustíveis fósseis. Assim, a Comissão descarta a suspensão das regras orçamentárias — “os freios fiscais não serão retirados porque a UE não está em recessão” — e vê com cautela o uso generalizado da cláusula nacional de flexibilidade, por poder aumentar a dependência energética que se pretende reduzir.
Von der Leyen também vinculou a resolução da crise ao desfecho do conflito: “Nosso objetivo comum é uma cessação duradoura da guerra no Irã” e a restauração da plena liberdade de navegação no estreito de Ormuz sem taxas. Ela enfatizou que qualquer acordo de paz terá de abordar o programa nuclear e de mísseis balísticos iraniano.
Na frente operacional, Bruxelas está a pressionar por maior coordenação entre Estados-membros não só para repor reservas nacionais de gás, mas também para constituir reservas estratégicas de combustíveis críticos — especialmente querosene para aviação e diesel — cujos mercados mostram sinais de aperto. “Juntos, temos um enorme poder de mercado e uma grande força industrial: coloquemos isso ao serviço dos europeus”, declarou a presidente.
Em termos de demanda, houve avanços: em 2022 o gás determinava os preços da eletricidade por 70% do tempo; hoje essa influência caiu para 30%, evitando os choques de preço da crise anterior. Ainda assim, a eletricidade representa menos de um quarto do consumo final de energia na UE — muito abaixo dos níveis de Estados Unidos e China — e essa composição energética tem de mudar. “Um continente com recursos limitados de combustíveis fósseis deve liderar a eletrificação global”, disse von der Leyen, lembrando que até o verão a Comissão apresentará um Plano de Ação para a Eletrificação.
Como economista e estrategista que pensa a economia como um motor que precisa de calibragem fina, ressalto que a crise expõe tanto a fragilidade da nossa cadeia de abastecimento energético quanto a necessidade de uma calibragem de políticas que combine investimentos em infraestrutura limpa, coordenação industrial e disciplina orçamentária. É hora de acelerar tendências estruturais sem abandonar a prudência das regras fiscais, controlando riscos enquanto se desenha o novo ciclo de crescimento sustentável para a Europa.