Cannes 2026: Costa Rica na seleção oficial, mas a Itália fica de fora — um sério alerta para o cinema
Cannes 2026 não tem filmes italianos na seleção oficial; Costa Rica entra. Um alerta para políticas culturais e a presença do cinema italiano no cenário global.
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Cannes 2026: Costa Rica na seleção oficial, mas a Itália fica de fora — um sério alerta para o cinema
Por Chiara Lombardi — O anúncio da seleção oficial do Festival de Cannes soa como um espelho do nosso tempo: entre 2.541 filmes enviados por 141 países, não há sequer um título italiano convidado para a programação oficial da 79ª edição. Sim, o Costa Rica conseguiu espaço — e a ausência da Itália torna-se um sinal de alerta que pede interpretação, não apenas indignação.
É a primeira vez em uma década que um Festival de Cannes não traz nenhum filme italiano em competição, num festival cuja história remonta a 1946 e que coroou, em seus primórdios, Roma città aperta. Diante desse fato, sobra menos consolo em lembrar que ainda podem surgir nomes italianos na Quinzaine des Cinéastes ou na Semaine de la Critique — palcos valiosos, mas que não substituem o prestígio da seleção oficial.
O episódio sucede uma polêmica recente em Berlim, quando a então subsecretária alegou que os produtores italianos estariam preferindo apostar em Cannes — ironia que, agora, parece soar ainda mais amarga. Não é apenas sobre festivais: é sobre quem pensa o cinema de um país, sobre políticas culturais, sobre estratégias de produção e sobre como a indústria italiana se posiciona no roteiro global.
Enquanto isso, a Croisette promete um banquete cinematográfico. Entre os títulos esperados, Pedro Almodóvar aparece com Amarga Navidad, centrado numa crise conjugal que explode durante as festas; o romeno Cristian Mungiu foi até a Noruega para rodar Fjord; Asghar Farhadi assina Histoires Parallèles, filmado na França com Vincent Cassel e Isabelle Huppert. Do Japão chegam Hirokazu Koreeda, abordando inteligência artificial em Sheep in the Box, e Ryūsuke Hamaguchi com Soudain, protagonizado por Virginie Efira. Também estão confirmados nomes como Pawel Pawlikowski, Rodrigo Sorogoyen, László Nemes e Ira Sachs, além de estreias promissoras que soletram diversidade e renovação.
Esse cardápio internacional evidencia um ponto crucial: outros países encaram o cinema com políticas e olhares que favorecem a presença nas grandes janelas culturais. A falta de títulos italianos na seleção oficial é, portanto, mais do que uma lacuna estética — é um sintoma. É o roteiro oculto da sociedade que se revela quando as instituições, os incentivos e as redes de coprodução não acompanham a transformação do mercado global.
Para quem ama o cinema italiano, resta a urgência de analisar estratégias de fomento, exportação e visibilidade. Para os observadores culturais, é um convite a pensar o cinema como índice de identidade nacional e de projeção internacional — um pequeno filme ausente que diz, em silêncio, muito sobre prioridades e esquecimentos.
No final, a Croisette continuará a oferecer telas cheias de vozes diversas; cabe à Itália reencontrar sua presença e escrever o próximo ato com ambição e clareza, recuperando o papel que o cinema desempenha como cenário de transformação e como espelho do nosso tempo.
9 de abril de 2026