Isabella Ragonese revela seu papel em Il Dio dell'amore: uma comédia romântica entre caos e maternidade

Isabella Ragonese fala sobre Il Dio dell'amore, maternidade inesperada, Ovidio e a Palermo que a formou; reflexões sobre amor e memória.

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Isabella Ragonese revela seu papel em Il Dio dell'amore: uma comédia romântica entre caos e maternidade

Por Chiara Lombardi — Aos 20 anos de carreira no cinema, Isabella Ragonese retorna como rosto central de uma comédia que, sob aparente leveza, revela um mosaico de afetos e contradições. Il Dio dell'amore, dirigido por Francesco Lagi e escolhido para abrir o Bif&st de Bari no dia 21, é um espetáculo coral onde o antigo encontra o contemporâneo — e o poeta Ovidio (interpretado por Francesco Colella) funciona como um fio literário que costura essas histórias.

No centro do filme, Ragonese dá vida a uma mulher cujo percurso amoroso é, nas próprias palavras da atriz, um emaranhado de episódios: “faccio più di un casino” — e é justamente desse caos que surge a potência dramática da personagem. Entre encontros e desencontros, ela encara uma maternidade inesperada após anos de busca, enfrentando a questão da fertilidade do marido (papel de Vinicio Marchioni). O enredo atravessa diferentes vidas ligadas por laços amorosos, revelando personagens com traços verossímeis, daqueles que poderíamos encontrar na rua.

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Il Dio dell'amore usa o gesto anacrônico de trazer Ovidio ao presente como um recurso para transformar o filme em quase um tratado sentimental: fantástico na forma, realista nas pessoas. Há humor e amargura, e entre os núcleos surge a figura de Vanessa Scalera como uma psicoterapeuta que se descobre mais frágil do que os próprios pacientes — um espelho do nosso tempo onde a autoridade emocional é posta em xeque.

Ragonese traça, em sua fala, um caminho pessoal e coletivo: lembra o crescimento em uma Palermo marcada pelas tragédias de Falcone e Borsellino, um cenário que moldeou gerações com o sentido de abandono e imprevisibilidade. Essa memória histórica aparece como pano de fundo do seu modo de estar no mundo — uma atriz que aprendeu a conviver com o destino, com resignação curiosa e um pouco de fatalismo que, confessa, a ajuda a aceitar o que não pode mudar.

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No cruzamento entre vida pessoal e representação, ela evoca filmes que marcaram sua ideia de amor — citando Paura d'amore, com Al Pacino e Michelle Pfeiffer, como um exemplo de romance que se constrói dia a dia, no detalhe cotidiano: “guardano l'alba insieme” torna-se metáfora de uma intimidade construída lentamente.

Também há uma crítica sutil ao olhar social sobre as mulheres: perguntam a ela sobre a maternidade com uma frequência que nunca se impõe a atores homens. “Superati i 30 anni la domanda scatta in automatico”, diz Ragonese, apontando para um retrato cultural que insiste em definir identidades femininas por um único eixo. A atriz lembra seus papéis em filmes como La nostra vita, Viola di mare e Il padre d'Italia, e como a transição de namorada a mãe às vezes acontece em um único corte narrativo.

Fora do set, confessa que hoje as ruas não a reconhecem tanto — algo que no passado a incomodava e que agora vê com outra lente. Essa invisibilidade pública, paradoxalmente, a protege da leitura reduzida que a sociedade tenta impor. No filme, como na vida, o amor pode soprar como brisa ou devastar como tempestade; e Isabella Ragonese está ali para nos lembrar que as histórias de amor são também um reframe da realidade, um roteiro oculto onde escolhas, memórias e contexto histórico se encontram.

Em um tempo em que o entretenimento funciona como espelho social, Il Dio dell'amore surge não apenas como comédia romântica, mas como um comentário sensível sobre as formas contemporâneas de amar, procriar e existir — uma cena onde o cinema europeu reconhece suas raízes clássicas e as joga contra o caos emocional do presente.

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