Michele Placido aos 80: do beijo à freira às ostias roubadas, polícia em Valle Giulia e o drama da separação
Michele Placido, aos 80, relembra ostias roubadas, Valle Giulia, La Piovra e a separação após a grave condição da filha. Entrevista e análise cultural.
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Michele Placido aos 80: do beijo à freira às ostias roubadas, polícia em Valle Giulia e o drama da separação
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Por Chiara Lombardi — Em uma longa conversa com o Corriere della Sera, Michele Placido revisita os seus 80 anos como quem folheia um roteiro onde ficção e vida se entrelaçam. A trajetória do ator pugliese surge aqui como um espelho do nosso tempo: infância mística, incursões na ordem — e na desordem — pública, o estrelato televisivo que salvou sua pele, e as fraturas íntimas que mudaram o rumo da existência.
O relato começa com uma memória que mistura sacrilégio e inocência. Aos dez anos, conta Placido, aconteceu o episódio com a jovem freira Antonietta: “Ho baciato una suora” — um beijo discreto, num Natal de criança, encerrado numa bronca e numa lembrança permanente. A mística infantil, acrescenta ele, era tão intensa que chegou a alimentá-lo com o desejo de “diventare santo”. Essa tensão espiritual culminou numa expulsão do internato na Ciociaria, depois que, numa noite, desceu à capela e, tremendo, pegou algumas ostie consagradas para mastigar — um gesto de culpa e curiosidade religiosa que marcou sua formação.
Antes da ribalta, Placido passou pela farda. Aos 18 anos, desgostoso com as expectativas paternas, alistou-se na polícia em Roma e viveu a crise dos encontros de Valle Giulia, no 1º de março de 1968. Relata uma cena de tensão e vergonha: ao perseguir uma provocadora, acabou agarrando uma jovem e saiu do confronto aos prantos — apenas para, depois, ser procurado por ela, que lhe pediu o número. É uma dessas anedotas que revelam como as circunstâncias forjam identidade e narrativa pessoal.
O sucesso de La Piovra transformou Placido em figura pública global e, em duas ocasiões, literalmente o salvou. No Afeganistão, durante uma filmagem a bordo de um veículo militar soviético cercado por guerrilheiros, ele foi protegido pelo reconhecimento: a multidão, em vez de atacar, passou a chamar “Cattani!”, seu personagem mais famoso, e receber autógrafos. Em Torre Annunziata, depois de um espetáculo, uma emboscada com armas terminou em abraço quando os agressores o identificaram — outro sinal do poder ambíguo da fama.
Politicamente, Placido se declara de esquerda — “sempre votei socialista” — e não se furta a avaliações diretas sobre líderes atuais. Sobre Giorgia Meloni diz que “tem os pés no chão” e sabe pôr limites; sobre Elly Schlein foi mais crítico: “É um pouco fuffa”, sintetiza, numa frase que resume a sua propensão a julgamentos claros e sem rodeios.
Mas é na vida privada que a entrevista solapa o público: ao falar da separação com Federica Vincenti, Placido aponta um trauma decisivo. Foi a descoberta de uma grave condição na filha que teria precipitado a mudança de rota: “Nossa filha não tinha um pedaço do cérebro, e daí mudou tudo”, confessa, citando o impacto que a dor e a responsabilidade tiveram sobre o casal e as escolhas subsequentes.
Ao longo do depoimento, surge o aspecto mais interessante para quem observa cultura e memória: a vida de Placido funciona como um roteiro oculto da Itália das últimas décadas — misticismo e laicidade, violência política, fama midiática e a tensão privada entre criação, perda e reconstrução. É um percurso que, como todo bom filme europeu, não se contenta com a superfície; convoca o espectador a olhar o porquê das coisas.
Em sintonia com a sua carreira, que transitou entre teatro, televisão e cinema, Placido fala com a modulação de quem olha o próprio papel num palco maior. A entrevista é um convite a considerar como figuras públicas encarnam contradições históricas: heróis, alvos, pais e filhos — homens cuja biografia se entretece com o roteiro mais amplo da sociedade.
Esta conversa, aos 80 anos, confirma que a carreira de Michele Placido é menos um conjunto de episódios do que uma narrativa contínua, um eco cultural que ainda tem páginas por escrever. E, como todo bom filme que reverbera, deixa perguntas: como transformamos choque e perda em arte e memória? É o roteirista oculto da vida que insiste em nos ensinar.