Nolan, digno de Omero: por que 'Ulisse' é uma obra-prima que faz o cinema voltar a ser grande
Por que o novo 'Ulisse' de Nolan, tão épico quanto 'Dunkirk', reafirma o cinema como território público e grandioso em três horas sem tédio.
RESUMO ✦
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Nolan, digno de Omero: por que 'Ulisse' é uma obra-prima que faz o cinema voltar a ser grande
Assisti a Ulisse de Nolan com a sensação de entrar em um palco épico: três horas de filme que não perdem fôlego, onde cada cena se apresenta como um quadro vivido. Se alguém ainda chama a experiência de "cazzata", merece, com todo respeito irônico, um cinema pequeno — daqueles onde a tela é só uma lembrança do que o cinema pode ser.
Comparar Nolan a Omero pode soar pretensioso, mas a analogia não é gratuita. Há no novo filme desse cineasta a mesma ambição narrativa do poema antigo: construir um percurso de memória e resistência, de imagem e som, que se sustenta sem atalhos. É um exercício de epopeia moderna, uma reescrita do épico em imagem móvel com o mesmo rigor que vimos em Dunkirk. Ali, Nolan transformou o tempo e a percepção em matéria de cinema. Aqui, ele recicla essa alquimia para outra odisseia — menos literal, igualmente monumental.
O que impressiona em Ulisse não é apenas a duração — as tais três horas — mas a economia de cada minuto: não há espaço para enfado, nem para preguiça formal. A montagem e o design sonoro atuam como um metrônomo emocional, conduzindo o espectador pelo roteiro oculto da sociedade, pelas fissuras da memória coletiva e pelo peso das escolhas individuais. É cinema que exige atenção e devolve urgência.
Vivemos um momento em que o cinema se fragmenta em algoritmos e formatos curtos, e é exatamente essa sensação de redução que Nolan confronta. Ao restituir a grandiosidade narrativa, ele não romantiza o passado: antes, propõe um reframe da realidade contemporânea, um espelho do nosso tempo capaz de refletir ansiedades e esperanças. Por isso, chamar a obra de “clichê” ou “capricho vazio” é, na melhor hipótese, falta de imaginação; na pior, uma incapacidade de ler o que o filme propõe para além do entretenimento imediato.
Há no filme uma qualidade muscular que lembra os grandes épicos europeus — não apenas no escopo, mas na convicção ética e formal. Nolan não busca apenas o espetáculo; ele ensaia uma conversação com a tradição, com a memória cultural e com a história do próprio cinema. E essa conversa é feita em imagens que funcionam como ecos culturais: planos que reverberam, som que pressiona, silêncios que dizem tanto quanto um monólogo.
Se me pedem um resumo crítico, digo sem hesitar: Nolan entregou uma obra-prima. Não por mania de superlativo, mas porque poucos cineastas atuais conseguem aliar ambição, técnica e sentido narrativo com essa pureza. E enquanto houver quem confunda ousadia com excesso, haverá espaços pequenos demais para exibir um filme que, como Ulisse, merece salas grandes e plateias inteiras.
Em tempos de fragmentação cultural, assistir a um filme assim é recuperar a sensação de que o cinema ainda pode ser um território público de pensamento — um lugar onde o espetáculo e a reflexão coexistem. Nolan não só nos devolve essa sensação: ele nos lembra por que, mesmo em crise, o cinema continua importante.

