Por que Hollywood está evitando Cannes: o reframe do festival da Croisette

Por que grandes estúdios evitam Cannes em 2026? Entre marketing e alma festivaliera, Cannes ressurge como curador do melhor, não do mercado.

Por que Hollywood está evitando Cannes: o reframe do festival da Croisette

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Por que Hollywood está evitando Cannes: o reframe do festival da Croisette

Por anos a Croisette foi o tapete vermelho onde os grandes estúdios exibiam seus maiores trunfos para conquistar o verão: blockbusters que prometiam público e bilheteria. Pense em E.T., Top Gun: Maverick, Indiana Jones, Up, Once Upon a Time... in Hollywood e até adaptações de sucesso como O Código Da Vinci. Mas algo mudou no roteiro: hoje muitos títulos de Hollywood preferem não estrear em Cannes.

Este ano, por exemplo, esperava-se a presença de Spielberg com Disclosure Day (previsto nos cinemas em 10 de junho), mas o filme não veio à Croisette. As justificativas oficiais são múltiplas; a razão mais sincera parece ser o medo de que o acolhimento do festival não se alinhe com estratégias de marketing cuidadosamente orquestradas para o lançamento comercial.

O receio não é sem fundamento: o ano anterior ofereceu sinais claros. Em Veneza, a Warner optou por não exibir a estreia de Una battaglia dopo l'altra — segundo relatos motivada pela má recepção que Joker: Folie à Deux recebera no ano anterior. Esse tipo de reação mostra que estúdios grandes preferem ambientes onde os aplausos (e, por consequência, a narrativa midiática) sejam mais previsíveis.

Por décadas, festivais e mercados caminharam juntos, muitas vezes trocando a sua alma crítica pela vitrine comercial. Mas atualmente essa metamorfose parece já não satisfazer: além do tapete vermelho, os estúdios querem por certo os aplausos garantidos. E se não houver segurança sobre isso, eles simplesmente não aparecem.

Isso, ao final, tem uma consequência positiva: obriga os festivais a revisitar suas origens, o propósito inicial que os viu nascer — selecionar o melhor, não necessariamente o mais vendável. E é exatamente esse espírito que ressoa no atual programa de Cannes, com nomes como Almodóvar, Kore-eda, Farhadi, Sorogoyen, Gray, Mungiu, Hamaguchi e Pawlikowski marcando presença.

Se a ausência de Spielberg nos incomoda enquanto espetáculo midiático, talvez seja um preço a pagar para que o festival recupere sua autoridade crítica. A Croisette volta a se apresentar como espelho do nosso tempo — menos interessada no verniz do mercado, mais atenta ao roteiro oculto da sociedade que os cineastas nos trazem.

Como observadora do zeitgeist, eu vejo nisso um reframe cultural: os festivais reaprendem a recusar o espetáculo quando ele ameaça substituir a arte. E isso é, no mínimo, um renascimento para quem acredita que cinema também é memória coletiva, crítica e risco.

Chiara Lombardi — Espresso Italia