Sandra Hüller, a alemã que carrega o peso da história em 'Fatherland' de Pawlikowski

Sandra Hüller fala do papel em Fatherland e do sentimento de culpa alemão pelo nazismo, em filme de Pawlikowski apresentado em Cannes.

Sandra Hüller, a alemã que carrega o peso da história em 'Fatherland' de Pawlikowski

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Sandra Hüller, a alemã que carrega o peso da história em 'Fatherland' de Pawlikowski

Por Chiara Lombardi — No coração da Croisette, onde o cinema fala em sussurros e gritos ao mesmo tempo, Sandra Hüller reemerge como uma figura cuja presença traduz o eco cultural de uma herança complexa. Em Fatherland, o novo filme de Paweł Pawlikowski em competição em Cannes, Hüller interpreta Erika Mann, a filha do Nobel Thomas Mann — personagem que a atriz conheceu intimamente durante o trabalho e que a levou a confrontar, publicamente, um sentimento persistente: o sentimento de culpa pelas chagas deixadas pelo nazismo.

O filme acompanha o retorno de Erika à Alemanha em 1949, após dezesseis anos de exílio, num road movie sofisticado e doloroso que atravessa Frankfurt e Weimar. No roteiro oculto da sociedade pós-guerra, a viagem com o pai desenha um país que tenta reconstituir-se entre memórias traumáticas e a emergência da Guerra Fria. Erika dirige, auxilia e ao mesmo tempo espeta: é companheira, antagonista e espelho do pai, que resiste a enfrentar feridas públicas e privadas.

Nascida na Turíngia em 1978, na então Alemanha Oriental, Hüller deixou-se descobrir pelo grande público em 2016 com Toni Erdmann e construiu uma trajetória marcada pela solidez teatral e por escolhas que transitam entre o cinema de autor e produções de maior alcance. No currículo, dois Ursos de Prata, dois European Film Awards, um César e uma indicação ao Oscar. Trabalhos recentes a colocaram ao lado de nomes como Ryan Gosling em Project Hail Mary, e atrairam a atenção de cineastas como Alejandro González Iñárritu, que a quis em Digger ao lado de Tom Cruise.

Sobre Erika Mann, Hüller confessa que o conhecimento do personagem foi se formando com o filme: «Não conhecia Erika antes; a conheci trabalhando», disse. Mas foi como alemã que ela descreveu a sensação mais duradoura: «Sinto o sentimento de culpa pelo nazismo todos os dias. Não me canso de senti-lo, porque acredito que é necessário para agir corretamente». A observação é mais do que uma declaração pessoal; é um reframe da realidade, uma maneira de entender como memórias coletivas moldam comportamentos éticos contemporâneos.

Hüller encontrou em Hanns Zischler, que interpreta o pai no filme, uma fonte generosa de informações: «Foi uma sorte trabalhar com ele. Erika escrevia, havia atuado, pilotava carros, falava várias línguas — era uma cidadã do mundo. Depois da morte do irmão Klaus, ela largou tudo para cuidar do pai, movida por um intenso senso de dever».

Curiosamente, a atriz relativiza a aura transformadora que o Festival de Cannes costuma trazer: «Não acredito que Cannes tenha mudado minha vida; foi meu trabalho com diretores que me levou até aqui». A afirmação remete ao ethos da artista que constrói carreira como quem compõe um roteiro longo — cada escolha, cada cena, uma decisão sobre a própria narrativa.

No festival, onde se anunciam novas rainhas do palco cinematográfico — nomes como Renate Reinsve já circulam nas apostas futuras —, Hüller representa algo além do estrelato: um espelho do nosso tempo, a lembrança de que o entretenimento pode ser também um exercício de memória e responsabilidade histórica.