Andy Green estabelece novo recorde mundial com carro a hidrogênio: 653,908 km/h

Andy Green bate recorde para carro a hidrogênio em Bonneville: 653,908 km/h com motor JCB de 1.600 cv. Análise técnica e histórica por Otávio Marchesini.

Andy Green estabelece novo recorde mundial com carro a hidrogênio: 653,908 km/h

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Andy Green estabelece novo recorde mundial com carro a hidrogênio: 653,908 km/h

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia

O piloto britânico Andy Green, já inscrito na memória do automobilismo por ter sido o primeiro a ultrapassar a barreira do som a bordo de um carro, acrescentou mais um capítulo à sua trajetória ao conquistar um novo recorde mundial de velocidade para um carro a hidrogênio. Em Wendover, no deserto de Utah (EUA), Green alcançou a marca de 653,908 km/h sobre o salino leito do Bonneville Salt Flats, segundo relatório da Fédération Internationale de l’Automobile (FIA).

O veículo, de 9,75 metros de comprimento e concebido pelo fabricante britânico JCB, é equipado com dois motores de combustão interna alimentados por hidrogênio gasoso pressurizado, cuja potência combinada atinge cerca de 1.600 cavalos. Esses propulsores derivam da linha de motores usados em máquinas pesadas da JCB, adaptados para misturar hidrogênio com ar e gerar pulsações de potência suficientes para impulsionar a máquina sobre o sal.

Tecnicamente, trata-se de uma façanha que não visa apagar recordes absolutos do passado, mas sim validar caminhos distintos na busca por velocidade e sustentabilidade. A run de Green em Wendover não se compara ao recorde absoluto de velocidade em terra — também assinado por ele — quando, a bordo da Thrust SSC, em 1997, atingiu 1.227,985 km/h e quebrou a barreira do som. Ainda assim, o novo recorde para veículos movidos a hidrogênio assinala um desenvolvimento relevante: demonstra a viabilidade de soluções alternativas de propulsão em ambientes extremos e serve como laboratório acelerado para tecnologias que podem, no futuro, migrar para aplicações industriais e comerciais.

Green, 64 anos e piloto aposentado da Royal Air Force, já havia mostrado versatilidade em Bonneville e em Black Rock: além do feito supersônico de 1997, estabeleceu em 2006 o recorde de velocidade em terra para um carro a diesel, com 563,4 km/h, também nos vastos leitos salinos. Essas experiências, dispersas ao longo de décadas, funcionam como uma linha de continuidade na história da velocidade sobre terra — uma narrativa onde motoristas, engenheiros e fabricantes testam os limites materiais e regulatórios do possível.

Do ponto de vista cultural e técnico, o projeto é sintomático de um momento em que o esporte a motor volta os olhos para a sustentabilidade sem renegar sua antiga busca por extremos. O uso de hidrogênio em motores de combustão interna não é a mesma coisa que a propulsão por célula a combustível, mas representa uma pesquisa prática sobre armazenamento, distribuição e combustão de um vetor energético que promete descarbonizar setores pesados. A parceria entre um piloto histórico e uma empresa de máquinas pesadas como a JCB evidencia também algo mais amplo: a velocidade contemporânea é tanto um espetáculo quanto um campo de provas para transições tecnológicas.

Ao registrar 653,908 km/h em Wendover, Andy Green reafirma sua posição singular na história dos recordes e abre, de maneira sóbria e técnica, perguntas sobre para onde a velocidade irá quando as fontes de energia mudarem. Não se trata apenas de números; trata-se de entender como velhos ícones — carros, motores, pilotos — se adaptam e reconfiguram sua relevância num mundo que exige alternativas ao carbono.