Funeral de Alex Zanardi: dom Marco Pozza — “Mesmo morto, continuará a falar de objetivos”

Dom Marco Pozza, na Basílica de Santa Giustina, lembra Alex Zanardi: “Mesmo morto, continuará a falar de objetivos” e exalta seu legado humano e social.

Funeral de Alex Zanardi: dom Marco Pozza — “Mesmo morto, continuará a falar de objetivos”

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Funeral de Alex Zanardi: dom Marco Pozza — “Mesmo morto, continuará a falar de objetivos”

Padova — Na missa fúnebre celebrada na Basilica di Santa Giustina, dom Marco Pozza traçou um retrato comovente e preciso de Alex Zanardi, lembrando o atleta como figura que ultrapassou o gesto esportivo para configurar um legado ético e comunitário. A homilia, pronunciada diante de familiares, amigos e cidadãos, condensou a ideia de que a morte não esgota a presença pública de Zanardi: “Mesmo morto, continuará a falar de objetivos”, disse o sacerdote.

Naquela mesma linha, dom Pozza recorreu à irônica ternura que marcou muitas das intervenções públicas sobre Zanardi: “Lamento a morte, ele pensava que tinha bebido demais, mas nem desta vez fez as contas bem”, provocou o religioso, numa imagem que mistura dor com o traço de humor que frequentemente pontuou a narrativa do campeão. O padre completou com uma metáfora profundamente sensorial: “Ela (a morte) levou o corpo, mas a alma lhe escapou. Em uma faixa de ultrapassagem, foi enfiar-se dentro da carne e das histórias dos rapazes de Obiettivo3”.

O tom da homilia deslocou o foco do acontecimento estrito — a perda de um atleta — para a dimensão humana e política do gesto de Zanardi. Dom Pozza o definiu, num traço curto e revelador, como um homem “que sabia usar o subjuntivo, uma porta aberta”. A frase funciona como chave hermenêutica: quem privilegia o indicativo lamenta o atleta; quem recorre ao congiuntivo, explicou o padre, lembra o homem e lhe diz obrigado. É uma distinção gramatical que se transforma em avaliação moral e histórica sobre como guardar uma figura pública.

Ao imaginar o encontro de Alex Zanardi com o divino, dom Pozza lançou uma última imagem que sintetiza origem, identidade e imagética biográfica: “Ele vai olhar o Senhor nos olhos e não saberá o que dizer. E Ele lhe dirá: ‘Mas, Zanardi de Castel Maggiore…’”. A referência remete, de modo direto e respeitoso, ao título da autobiografia do campeão bolognês, e converge para a noção de que a lembrança de Zanardi se faz por detalhes locais e por trajetos humanos — o município de origem, a carreira, a conversão em símbolo de superação.

Para além das frases e da cerimônia, a homilia de dom Marco Pozza acrescenta um registro necessário ao debate público sobre sportivismo e memória: a morte de um atleta não encerra automaticamente sua capacidade de moldar expectativas e projetos. No caso de Zanardi, a sua relação com iniciativas como Obiettivo3 — voltada a jovens com deficiência e à reabilitação por meio do esporte — confirma que a obra permanece em curso, em instituições e em afetos.

Num país onde o esporte é frequentemente lido como palco de identidade regional e de disputas institucionais, a despedida de Zanardi oferece, assim, um momento de reflexão mais vasto. Não se tratou apenas de chorar um campeão, mas de reconhecer que algumas biografias ensinam maneiras de habitar o mundo: levando a sério metas, erros de cálculo, risos e cuidados com o próximo. É essa cartografia moral, mais do que o número de medalhas, que a homilia convidou a conservar.